A LUA E A CEGUEIRA – Ivan Lira de Carvalho

A LUA E A CEGUEIRA –

Ao explicar o insight que norteou a produção da sua obra literária “Ensaio sobre a cegueira”, José Saramago disse que estava aguardando o prato que pedira em um restaurante quando imaginou como seria a vida na Terra se todas as pessoas de repente ficassem cegas. E mais: concluiu, naquele átimo, no sentido de que realmente todas as pessoas já estão cegas. Melhor dizendo, já nascem cegas, pois não enxergam as grandes perspectivas da humanidade, ocupando-se muito mais com mesquinharias, com guerras, com disputas fratricidas e com o empobrecimento moral da espécie.

A ciência da motivação para a produção do livro  de Saramago provoca a atenção para certas convulsões  que as pessoas insistem em produzir ou reproduzir, tanto nos campos mais sérios e preocupantes (guerras, atentados terroristas etc), como em situações mais grotescas, a exemplo do que ocorreu recentemente com o tal fenômeno da “Superlua”.

Pois sim. A pretexto de observar um fenômeno da natureza consistente na aproximação da Lua da  Terra, diminuindo esse intervalo em poucos quilômetros, o que proporcionaria uma luminosidade especial ao satélite, boa parte da raça humana saiu atabalhoadamente das suas residências e dos seus afazeres, para tomar um imaginário banho de luar. Criou-se uma confusão infernal nas metrópoles dos diversos quadrantes do Mundo  e no Brasil não poderia ser diferente. Carros se entrechocavam; ônibus apinhados de passageiros; ciclistas perdendo o controle dos seus veículos e até toscas carroças de tração animal em disparada pelas vias públicas, como se fossem bigas no circo romano. Estabelecimentos comerciais cerraram as suas portas mais cedo. Restaurantes ficaram sobrelotados. Crianças de tenra idade foram autorizadas pelos pais a ir para o leito mais tarde. Tudo em nome de uma saudação ao grande espelho do sol, como se ele fosse sumir de vez do cosmo  ou, no campo da maluquice, viesse beijar a terra.

Tudo isso nos faz crer que a sociedade  está realmente carente de boa motivação existencial, pois um episódio naturalístico, que nem tem essas importâncias todas, passa a ser um acontecimento universal, comandando  o comportamento dos viventes de maneira significativamente  inusitada.

Sinceramente, tudo isso torna verossímil a  versão de que a Lua grande chacoalha as ideias de quem se entrega facilmente a essas novidades. Próximo passo poderá ser acreditar em lobisomem.

Ivan Lira de Carvalho – Juiz Federal e Professor da UFRN – ivanlira6@uol.com.br

Ponto de Vista

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