JÁ TOMOU A BENÇÃO A SEU PAI? – Carlos Alberto Josuá Costa

JÁ TOMOU A BENÇÃO A SEU PAI? –

Não entendo muito bem quando escuto alguém dizer que não tem mais pai. É como se, por alguma circunstância, somente com a presença física a figura do pai fosse significativa para aquele filho.

Fui criado tendo meu pai como referência e tendo-o como meu herói. Isso faz com que a sua presença, mesmo espiritual, me condicione a carregá-lo em pensamentos e em lembranças que não se apagam. Ou seja, mantenho-o vivo, pois em todas as minhas ações e atitudes busco, em primeiro lugar, os ensinamentos aprendidos dos seus conselhos e dos seus exemplos.

Ranilson, esse menino vai ser o que quando crescer? Era a pergunta cuja resposta estava sempre afiada: “Vai ser Contador”, dizia ele. Não fui. Enveredei por outros caminhos e, da ciência técnica, das atividades financeiras, das letras e das observaçoes da vida poli meu lastro. Lembro que certa vez cobrei dele: papai o senhor dizia que eu ia ser contador, mas não aconteceu. “Ora não!”, respondia sorrindo. “Você sabe contar histórias engraçadas, sabe contar até dinheiro!”, e caíamos na risada.

O pai antigo, se assim o colocarmos na linha do tempo, tinha a sua autoridade acima de qualquer sentimento, pois o seu dever maior era formar o filho como espelho de seu nome e sua honra. Isso o afastava das manifestações mais afetivas, porém não da disciplina e da autoridade de ser o pai, o mentor, o garantidor da segurança e do provedor da família. Isso fazia com que, por respeito e obediência, o filho mantivesse certo resguardo em manter um diálogo mais coloquial com o seu pai.

“Quem não obedece por amor obedece por temor”, dizia. Não precisava. Por amor, por entender que o seu desejo de fazer o melhor por mim, prevalecia. Claro que algumas vezes, o “temor” também aportava. Era preciso, reconheço. Nem por isso meu amor era menor e menos respeitoso por este meu querido pai.

Dele aprendi a grandeza do homem com a responsabilidade de conduzir uma família. Dele tirei muitas lições que delinearam o meu caminhar pautado na honradez e no respeito ao próximo. Com ele aprendi que somos filhos do mesmo Pai, e que fazer o bem eleva a nossa alma.

Nunca vi meu pai chorar. No entanto, hoje, tenho certeza, que na reserva de sua intimidade, as emoções afloravam e, entre elas, a da reflexão e do lacrimejar dos sentimentos humanos. E isso me dá a convicção que ele era forte ao mesmo tempo que era sensível quanto eu e você.

A interação entre ele e eu foi determinante para que o meu desenvolvimento cognitivo, social e cristão fossem a base que facilitou o meu aprendizado e, que colocou à minha disposição, os horizontes que se descortinaram em minha vida.

Nunca me disse NÃO (com letras maiúsculas), mas muitos nãos, quando realmente não estava ao seu alcance. Entretanto, muitos sins foram ditos e, reconheço que, na maioria das vezes, carregados de esforço e sacrifício. Nunca esqueci o dia em que ele me disse: “Ainda que tenha só um pão, primeiro darei a você e, comerei o que sobrar”. Assim era a grandeza de meu pai.

Como eu gostava de estar com meu pai, de acompanhá-lo, de aprender com ele na sua simplicidade, na sua coerência, no seu respeito com as coisas do alto.

Meu coração enche-se de alegria quando encontro alguns dos seus amigos e deles escuto: “Seu pai era um homem de bem”. Minha alma regozija-se de gratidão.

Ele partiu cedo. Ainda hoje sinto sua presença no que faço, no que aprendo, no que transmito aos meus filhos e aos meus netos.

Todos os dias, ao amanhecer, incluo-o em minhas orações. Diariamente tomo a sua benção, pois dela demanda o que há de melhor: Deus te abençoe.

Se todo filho compreendesse o poder de uma benção paterna, faria dela o seu esteio, no firmar de suas atitudes.

Resta-me agradecer, meu pai, todo o amor que a mim você dedicou.

Receba também, meu querido pai, a minha benção.

E você já tomou a benção a seu pai?

Mesmo que não tenha tomado, pode ter a certeza de que ele já te abençoou.

 

 

 

 

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil, escritor e Membro da Academia Macaibense de Letras

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

 

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