ILUSÃO DA MOEDA ÚNICA DO BRICS – Ney Lopes

ILUSÃO DA MOEDA ÚNICA DO BRICS –

É possível que em agosto próximo haja grave choque de interesses entre os Estados Unidos e os chamados países emergentes, que são aquelas nações em desenvolvimento econômico e social, com a presença de grande mercado consumidor, médio desenvolvimento humano e considerável crescimento econômico.

Esse grupo, hoje é formado por cinco países –  Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Denomina-se BRICS.

A sigla BRICS foi criada pelo economista Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs, em estudo, publicado em 2001.

O BRIC se constituiu em bloco em 2009 e desde então, vários encontros periódicos entre esses países foram realizados.

Em 2011, mais um país foi agregado: a África do Sul.

O Brics não é um bloco econômico propriamente dito, mas um mecanismo internacional de atuação das principais economias emergentes do mundo atual, cujo objetivo é reduzir a dependência econômica das nações mais ricas do mundo, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália.

Por tais razões, existe uma rivalidade acentuada, principalmente com os Estados Unidos, que lideram a economia ocidental.

Isto se acentuou, após a reunião da cúpula do BRICS realizada em Fortaleza, CE, no ano de 2014.

Na ocasião foi decidida a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), que tem por objetivo financiar projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável em economias emergentes e em países em desenvolvimento.

Em julho de 2015, o banco foi oficialmente inaugurado, contando com um capital de 100 bilhões de dólares, hoje presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff.

Os PIB’s do BRICS, somados, equivalem a 22% do PIB mundial.

Já a população corresponde por 42% dos habitantes do planeta.

O Brics busca atuar em conjunto nos foros multilaterais, que são entidades que reúnem vários países como a ONU e a Organização Mundial do Comércio (OMC), de modo a fortalecer as posições do grupo e a democratizar a governança internacional.

Também firma acordos entre os próprios países nas áreas de agricultura, ciência e tecnologia, cultura, governança e segurança da Internet, previdência social, propriedade intelectual, saúde, turismo.

A previsão de choque de interesses entre os Estados Unidos e o BRICS poderá ocorrer a partir de agosto próximo, quando o grupo realizará na África do Sul uma grande cúpula e a proposta de criação de uma moeda única do bloco será o principal tema da agenda.

Essa moeda seria para substituir o dólar americano.

Como será a nova moeda? Como vai funcionar? E por que a iniciativa está sendo lançada agora?

O presidente Lula foi um dos primeiros a afirmar,  que chegou a hora das nações da América Latina e do BRICS se afastarem do dólar para impulsionar o comércio multilateral e o desenvolvimento econômico do Sul Global.

Sem dúvida, temerárias as declarações do chefe do governo brasileiro, diante do risco dos produtores brasileiros, ao negociarem mercadorias com países que usam a moeda norte-americana, terem que enfrentar dificuldades insuperáveis pelas diferentes taxas de câmbio.

O agro-negócio seria a principal vítima.

Além do mais, os países do BRICS têm realidades muito distintas em relação a valores de Produto Interno Bruto (PIB), reservas internacionais, taxas de juros e outros.

Tais fatores poderão causar desvantagem de um país em relação ao outro que usar a moeda única.

O próprio euro ainda não tem todos os atributos necessários para competir com o dólar.

Ademais, o dólar é uma reserva de valor mundial.

A própria China tem reservas estimadas em US$ 3,1277 trilhões de dólares norte-americanos (moeda brasileira, equivale a quase R$ 16 trilhões.).

Para criar uma moeda conversível — isto é, ser aceita por todo o mundo —, é preciso, antes de tudo, ter livre movimentação de capitais.

A China, que financia e lidera o BRICS, não possui a livre movimentação de capital.

O partido Comunista Chinês usa os bancos chineses como braço parafiscal para legitimar o governo.

O que se pode antevê é que o BRICS continue a existir como instrumento de pressão econômica na concorrência internacional.

Entretanto, é ilusão ter uma moeda única, como sugeriu o presidente Lula.

 

 

 

Ney Lopes –  jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente da CCJ da Câmara Federal – ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal,  nl@neylopes.com.br 

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

Trump diz que não usará força para tomar Groenlândia, mas exige negociação

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em seu discurso no Fórum Econômico Mundial,…

13 horas ago

CFM quer impedir que 13 mil alunos de Medicina mal avaliados em exame nacional possam atender

O Conselho Federal de Medicina (CFM) estuda impedir que 13 mil estudantes de Medicina do…

13 horas ago

Criança morre soterrada após casa desabar durante forte chuva no ES; cidades têm deslizamentos e árvores caídas

Uma criança de 10 anos morreu soterrada após o desmoronamento de uma casa devido às chuvas, na…

13 horas ago

BC decreta liquidação extrajudicial do Will Bank, que integra conglomerado do banco Master

O Banco Central (BC) decretou nesta quarta-feira (21) a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito,…

14 horas ago

‘Sesc Parada na Ladeira’ terá show gratuito de Saulo Fernandes nesta quinta-feira (22) em Natal

A terceira edição do "Sesc Parada na Ladeira" será realizada nesta quinta-feira (22), abrindo a…

14 horas ago

PONTO DE VISTA ESPORTE – Leila de Melo

  1- Sábado (24) é dia de Clássico-rei! América-RN e ABC chegam em condições muito…

14 horas ago

This website uses cookies.