HABILIDADES PERDIDAS –

Certa vez, deixando-me levar por devaneios do tempo de criança e de entrada na adolescência eu tentei ensinar aos netos como fazer uma pipa. Não consegui, porquanto não lembrar sequer onde obter as taliscas de apoio da estrutura da peça nem qual tipo de papel utilizar.

Ao dar de presente a um deles uma bola de futebol tentei lhe ensinar a fazer embaixadas. Nova decepção. Embora sem mostrar talento para tal esporte nas peladas da infância, ainda conseguia dominar a bola por alguns segundos. Na tentativa com o neto não passei do segundo toque.

Sem querer frustrar as crianças novamente, procurei exercitar sozinho as poucas habilidades restantes daquele meu tempo de infância. A próxima foi a bola de gude que a equilibrávamos na dobra do dedo indicador sobre a unha do polegar. Também não consegui lançá-la na direção desejada.

Também tentei juntar, novamente, os dedos polegar e indicador, colocá-los na boca e soprar o ar a fim de obter um silvo estridente e diferenciado para chamar a atenção de alguém, mas foi em vão a tentativa porque consegui apenas um som sem graça e nada sibilante.

Desencantado após os esforços frustrados procurei espremer a mão entre o braço e o corpo na altura da axila para obter som parecido com um pum, ruído desaprovado pelos adultos, porém deu tudo errado. Renunciei a qualquer outra ação de resgatar lembranças daquele meu tempo ido para não ser tachado de avô bobo.

Tais lembranças me vieram à mente esta semana após saber da morte de Luis Fernando Veríssimo, porque quando me propus ensinar aos netos minhas habilidades infantis acima eu havia lido o conto “Vivendo e…”, integrante do seu livro Comédias para se Ler na Escola.

Nem toda unanimidade é burra quando o assunto é Fernando Veríssimo. O filho de Érico Veríssimo escritor consagrado pelas obras-primas legadas à Língua Portuguesa, superou o pai na produção literária com mais de 80 livros publicados e centenas de artigos aplaudidos por leitores de jornais e revistas do país.

A lacuna deixada pelo gaúcho de Porto Alegre é enorme. Não é todo dia que aparece um indivíduo portador de múltiplas facetas literárias como Fernando Veríssimo, autor de best-sellers para todas as idades.

Reunir numa só pessoa predicados como escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo, romancista, além de músico amador é algo difícil na atualidade. Tudo isso possuía Fernando Veríssimo, concentrado num carisma invulgar.

Assim como procederam escritores famosos como Graciliano Ramos Mário Quintana, Carlos Drumond de Andrade e Clarice Lispector, o talentoso Fernando Veríssimo absteve-se da vaidade de ostentar o título e, por isso, nunca se candidatou à vaga na Academia Brasileira de Letras.

Encerro este texto com duas de suas memoráveis frases que bem se adequam à nossa atualidade: Os americanos salvaram o mundo…E depois o mantiveram sob controle; A única pessoa que ainda acredita no governo é a Velhinha de Taubaté.

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,3080 DÓLAR TURISMO: R$ 5,5170 EURO: R$ 6,2250 LIBRA: R$ 7,1560 PESO…

14 horas ago

MP denuncia oito pessoas por esquema de sonegação que causou prejuízo de R$ 1,5 milhão no RN

O Ministério Público do Rio Grande do Norte ofereceu denúncia contra oito pessoas investigadas em…

15 horas ago

Motorista de carreta-tanque fica preso às ferragens após acidente na BR-101 no RN

Uma carreta-tanque tombou na BR-101, em Goianinha, no litoral Sul do Rio Grande do Norte,…

15 horas ago

Viatura da PRF capota durante perseguição a motociclista na BR-101 na Grande Natal

Uma viatura da Polícia Rodoviária Federal (PRF) capotou na noite dessa quarta-feira (21), durante uma…

15 horas ago

RN tem recorde de transplantes em 2025, mas segue com filas de espera por órgãos

O Rio Grande do Norte registrou um recorde no número de transplantes de órgãos realizados…

15 horas ago

Justiça condena governo do RN a pagar R$ 500 mil de indenização por assédio moral em secretaria

A Justiça do Trabalho condenou o estado do Rio Grande do Norte a pagar R$ 500…

15 horas ago

This website uses cookies.