Diógenes da Cunha Lima

O Rio Grande do Norte: ninguém sente que ele é grande, mas é.  É um Estado vivo, como um rio.  Há que ter um olhar especial para vê-lo.  Em cada lugar, há surpresas.  Galos e Galinhos são para mim surpresas.

Tudo parte do fato de que a gente só deve buscar duas coisas na vida: ser útil e ser feliz.  Assim, a vida se torna bonita.  É possível que alguém seja útil e infeliz, mas é impossível ser feliz sem ser socialmente útil.  Creio que deve haver uma hierarquia da devoção, da utilidade.  Primeiro, você deve ser útil à sua família, para depois ser aos amigos, à sua cidade, ao Estado, ao País, à humanidade.  A ecologia, ética da natureza, impõe deveres ao homem.  Ninguém é útil contrariando a natureza.

Isto tudo é para dizer que procuro uma das duas coisas em tudo o que faço durante o comprido do meu dia. Até quando estou lendo, aprendendo, estou me instrumentalizando para o exercício da busca, nosso destino.  Às vezes, as sugestões não valem, não servem, mas vale a pena tentar melhorar.  Galinhos e Galos não são aves, mas peixes.

Dona Irene, em Galos, faz a melhor tapioca do universo.  O peixe, por melhor que seja, é mero acompanhante da tapioca.  Em seu restaurante, conhecemos (Nilson Patriota, Serejo, Sanderson e eu) um filho de José Putaria, líder comerciante local. Soube que ele tinha mais de vinte filhos, dos quais nove com a sua esposa, com respeito e carinhosamente chamada de Dona Putariazinha. Do trapiche azul, você já observa a beleza circundante da Ilha das Cobras.

Os barcos, que necessariamente conduzem você, também têm nomes surpreendentes: O Veleiro das Ilhas, que não é movido pelo vento, não tem velas; o Irak, pacífico; o Presidente Ford, já esquecido nos Estados Unidos, mas não em Galinhos; os Três Irmão, uma singular pluralidade amiga; o Amsterdan, talvez lembrando que Natal já foi Nova Amsterdã; Monte Orébio, que me disseram pertencer a um crente.  Felizes os que crêem, certamente.

Garças brancas compõem a manhã, cavalos-marinhos nadam em pé pela verticalidade do meio, caracóis e conchas, grandes búzios estimulam a vista e, para os iniciados, os ouvidos.

Em Galinhos os táxis são carroças,  mulas e jumentos conduzidos por meninos.  Queira Deus que não permitam o gás carbônico dos carros tome conta da península.  Quem sabe se poderíamos importar de Portugal e Espanha a moda de sacolas que guardam os dejetos animais?

Querendo ser útil, imaginei que as carroças fossem decoradas com flores, mesmo falsas, de plástico.  Imaginei placas educativas, de louvor, ou que ajudassem a pensar em favor da comunidade.  Deixei na Prefeitura alguns textos que poderiam anunciar as carroças.  Assim:

– Este jumento é colega do que transportou Nosso Senhor;

– Transporte de flores;

– Tração animal é a atração do lugar;

– A mula não emula com você;

– Aqui se aprende que a calma é amiga da perfeição;

– O seu meio de transporte é o meu meio de vida;

– Somos ricos. Em sol, mar e simpatia;

– Não cante de galo em Galinhos.  Você nada bem?

– Galinhos não é ilha.  É mar–av–ilha;

– São várias ilhas.  Na península você não se sente ilhado.

Há ótimas pousadas em Galinhos, o melhor são os donos.  Dalvaci e Oreste têm a mais singular.  São dormitórios feitos em tábuas.  Oreste, italiano, que se diverte conduzindo um pequeno papagaio no ombro, fez a alegria gustativa dos pilotos da Fórmula Um.  Faz um Peixe no Jerimum para papa-jerimum nenhum botar defeito.  Dalvaci, seridoense, é escultora.  Descobre na natureza os melhores troncos, raízes, cascas, conchas e cristais.  Daí, nascem um fálico deus grego, uma máscara com língua vermelha triangular, uma estrela-do-mar em conchinhas, um pote vermelho e amarelo ameaçado por uma mão-de-pilão.  Um atleta conduzindo um facho é uma raiz de rosa-cera. Tudo muito bonito.

A Pousada de Galinhos é de Carlos, um homem de comunicação, inteligência e rápida amizade.  Pino é outro italiano, de Roma.  Já sabe utilizar a beleza da guabiraba como coluna.  Quito, apelido de Joaquim, o barbado português, é leitor ávido, arquiteto naval, colega de um dos filhos de Albano Neves de Souza, o grande artista que ilustrou o Vaquejada Nordestina de Câmara Cascudo.  Conheceu Neves de Souza em Angola.

Vá ver Galos e Galinhos, dar a eles, e deles receber, presentes.  E fazer a vida um pouco mais bonita. Galinhos é maravilha, ou melhor, mar, ave, ilha.

Diógenes da Cunha LimaEscritor, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

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