Públio José

 É desestimulante, de uns tempos pra cá, assistir-se a uma partida de futebol no Brasil. É claro que no campo o que se joga é futebol – ou algo parecido; é claro que no campo todos os elementos têm ligações com o tal esporte bretão. Lá estão o estádio, as torcidas, os atletas, os juízes, os dirigentes… Mas futebol mesmo é mercadoria difícil de se achar. E um dos fatores a contribuir para esse desencanto é o relacionamento dentro de campo entre jogadores e juizes. No Brasil, o que se passa nos estádios é digno de estudo para psicólogos, psiquiatras e neurologistas – e de outros profissionais ligados ao comportamento mental das pessoas. Em campo, além do pouco futebol, o que se vê é um repetitivo festival de histeria dos atletas a tudo que o juiz apita. Se é um lateral o xingamento logo se faz presente; se é um impedimento do mesmo jeito. E raro, muito raro presenciar-se um gesto de educação, de civilidade.

 Agressões físicas e verbais, faltas maldosas, malandragens explícitas, simulações desavergonhadas – e nunca, nunca mesmo, os jogadores aceitam a punição.  Sempre tem aquela rebeldia chata, aquela indisciplina tristemente já esperada. Ou os tais – sem exceção – fazem parte de um quadro patológico além da compreensão ou são instruídos pelos técnicos e dirigentes a agirem como irracionais. Na marcação de um falta correm todos pro juiz como se ele fosse voltar atrás da decisão; na marcação de um pênalti é um deus nos acuda; no caso de uma expulsão a reação é bem pior, chegando muitas vezes a agressão física. Técnicos e dirigentes também não ficam atrás. Vociferam, xingam, jogam a culpa em tudo e em todos – menos no faltoso. E quem pensa que tal cenário está circunscrito aos campos de futebol está redondamente enganado. É só olhar para o universo político que a realidade é a mesma.

 Quando funcionários de governos, altos dirigentes de partidos e parlamentares são flagrados roubando descaradamente, logo aparecem superiores hierárquicos para colocar culpa em tudo – menos nos larápios. E, como no futebol, logo sobram acusações para o Judiciário, para os adversários, para a imprensa – menos para os faltosos. No caso específico dos ladrões do atual governo, e dos corruptos do partido petista, o argumento é sempre o mesmo: o mensalão – apesar de fartamente comprovado – foi invenção das elites, da mídia golpista, da direita reacionária. Já a corrupção da Petrobras é invenção de quem quer acabar com a empresa; da direita revanchista; dos que não aceitam a eleição de um operário à Presidência da República – nunca dos corruptos. E o caso da Petrobras é exemplar. Simples. Nela, jamais houve alguém com tanta influência como a Dilma Rousseff.

  Como Ministra de Minas e Energia, como Ministra Chefe da Casa Civil (período no qual foi também Presidente do seu Conselho de Administração) e depois como Presidente da República. É público e notório que ela mandava, mandava e mandava na empresa. E não somente na Petrobrás, mas em tudo que diz respeito ao setor petrolífero brasileiro. E o que se observa? Para o governo, ao contrário de toda lógica, Dilma de nada sabia a respeito do escândalo que devasta a Petrobras – e, por extensão, a toda economia brasileira. Quanta inocência! Também dela não se tem um pedido de desculpa, nenhum reconhecimento ao prejuízo causado aos brasileiros, aos contribuintes, aos acionistas. Nada. No futebol, embora pressionado, de vez em quando o juiz expulsa um de campo. Já no caso de Dilma, ela vem dando botinadas pra todo lado e nada lhe acontece. Cadê o juiz? Cadê o apito? Prrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Públio José – jornalista – (publiojose@gmail.com)

Ponto de Vista

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