FLORENÇA É UMA PRECE –
Quando Câmara Cascudo deu-me um exemplar de seu “Dante Alighieri e Tradição Popular no Brasil”, fez uma observação singular: “Eu já estou muito velho para voltar a visitar Florença. Você vá à Basílica Santa Maria Novella, local em que Dante costumava rezar, ajoelhe-se e faça uma prece. Não por ele, que não precisa, mas por mim, que sou pecador profissional”.
Muitos anos depois, em férias prolongadas, passei cem dias na bela capital da Toscana. E cumpri a ordem do meu mestre. Rezei em cada uma das capelas, admirando a beleza dos afrescos e pensando na história.
Com tanta beleza criada pelos homens, tive certeza do perfeito relacionamento do humano com o divino. É impossível não haver essa relação.
Imaginei que Dante Alighieri (1265-1321) havia pedido a Deus, como recompensa por sua “Divina Comédia”, que concedesse à sua cidade o privilégio de receber e concentrar a maior parte dos gênios universais. Logo foi atendido.
Lá aportaram Cimabue, Giotto, Boccacio. A partir do século XV, a fluência foi ainda maior. Sede da chamada Renascença, a cidade teve Michelangelo, Donatello, Leonardo da Vinci, Boticelli, Rafael Sanzio, Maquiavel e tantos outros.
Surgiram palácios, igrejas, museus, praças, ruas artísticas, esculturas, também há, pela cidade, manifestação visual do amor dos enviados divinos. Vendo Florença, temos certeza de que a vida humana é muito curta, não dá tempo usufruir tanta beleza.
Cada dia foi uma surpresa. Encantam as obras de Frangelico no Museu de São Marcos, localizado em um Mosteiro. No andar superior, o conhecido e admirado “Anjo da Apresentação”. A Igreja de Santa Croce guarda todos os tesouros, o túmulo dos notáveis da Itália. Santos e santificados, entre os quais, o túmulo de Maquiavel.
O paraibano Pedro Américo (1843-1905) concluiu sua colossal obra “Independência ou Morte” em Florença. A famosa tela está no Museu do Ipiranga, em São Paulo, mas foi apresentada, pela primeira vez, na Academia de Belas Artes de Florença, em 8 de abril de 1888, com a presença de reis e príncipes. Depois de alguns anos, o pintor retornou a Florença, onde morreu.
O amor florentino é arraigado. Há séculos vige a disputa com Ravena pelos restos mortais do altíssimo poeta. O autor da estátua La Pietà, que está no Vaticano, escultor Michelangelo Buonarroti, não deixou por menos, acrescentou: “De Florença”.
Vivi uma cidade em flor, ou melhor, a flor das cidades.
Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN
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