FIM DO SÉCULO XX, FIM DE UM CICLO – Rinaldo Barros

FIM DO SÉCULO XX, FIM DE UM CICLO – 

A história é caprichosa. Fidel desencarnou no mesmo dia em que o iate Granma saiu do México com um grupo de 81 guerrilheiros rumo a Cuba, para – em jornada épica, quase suicida – iniciar a Revolução cubana, em 25 de novembro de 1956. Amado e odiado na sua própria família por filhos e parentes, Fidel é uma das figuras políticas mais controversas do último século.
Um homem que transformou um país com pouca expressão em um dos ícones de resistência e resiliência contra um império.Fidel foi (ainda o é?) o grande ícone da “esquerda” da América Latina. Para alguns, um santo e lutador, um assassino sanguinário para outros. Por mais contraditório e antagonista que possa parecer, Fidel foi, sobretudo, um sobrevivente, como muitos de nós, latino-americanos, explorados e sobreviventes em nossas lutas diárias desde o nascimento. Sua morte fecha um ciclo e encerra o século XX.
Fidel, antes de assumir o poder, contava com apoio de alguns cubanos influentes que financiaram o treinamento dos guerrilheiros e a divulgação de panfletos por toda a ilha. Fidel chegou a Havana, no Réveillon de 1958 para 1959 assumindo o controle do governo, após a fuga de Fulgêncio Batista (ditador de 1952 a 1958).
A Revolução Cubana, de início, não foi Socialista. Foi, sim, Nacionalista! Fidel não queria perder o apoio dos EUA. É tanto, que a sua primeira viagem internacional (à época) foi para pedir apoio aos EUA.
Entretanto, como o governo Fidel nacionalizou muitas empresas e fez uma reforma agrária radical, principalmente às custas de latifúndios pertencentes também à americanos, o governo estadunidense não poderia compactuar com perdas para seus próprios cidadãos.
Cuba sempre dependeu da ajuda externa, pois com território limitado e poucos recursos naturais, não havia como sustentar a economia numa revolução nacionalista.
Fidel, então, na época da Guerra Fria, foi quase que “jogado” nos braços dos Russos, que interessados pela proximidade territorial dos EUA (menos de 90 Km da costa dos EUA), influenciaram Fidel a proclamar Cuba um país com regime Socialista.
Cuba, sob o governo de Fidel, conseguiu significativa inclusão social, com foco na Educação e Saúde. Todavia, nunca conseguiu evoluir para um regime político fundado na Liberdade e na Democracia.
Democracia não é fácil, há que se praticar a tolerância, e aceitar a alternância no poder como pilar do Estado Democrático de Direito. Fidel não conseguiu dar este passo.
Segundo Maja Liebing da Anistia Internacional (https://anistia.org.br/), Fidel e a Revolução Cubana são responsáveis pela morte de mais de 100 mil pessoas, o que o tornaria um dos ditadores mais violentos e temidos da América Latina. Fidel teria mandado prender e matar milhares de pessoas apenas por exercer pacíficas atividades políticas (afugentando da Ilha milhares de cubanos). Calcula-se que cerca de dois milhões de cubanos exilados vivem nos Estados Unidos atualmente.
Um dos mais duros golpes contra Fidel foi a queda do bloco soviético, a partir do final da década de 1980. Com a diminuição da ajuda soviética (em dinheiro, petróleo e na compra de açúcar e outros produtos cubanos), Cuba se viu em uma crise econômica sem precedentes.
Com a economia cada vez mais debilitada, considerando que a geografia agora lhe era favorável, Fidel resolveu “abrir” a economia para o turismo. Uma nova possibilidade de criação de hotéis e resorts por empresas estrangeiras foi aberta.
Cuba também passou a exportar “mão de obra”, desde militares, que combateram nas revoluções em Angola e Etiópia, passando por professores, enviados também para diversos locais do mundo, até médicos, exportados para países como Venezuela, Bolívia, Equador e até mesmo o Brasil, para sustentar o regime cubano.
Fidel, autoproclamado agnóstico, também teve importantes encontros com os Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco, sempre mediando conflitos entre outros países ou grupos latino-americanos, mostrando uma influência política rara.
No ocaso de sua vida, já fora do poder oficial, Fidel orientou para o fim do antagonismo Cuba x EUA, com a aproximação entre Raul Castro e Barack Obama. O acordo foi anunciado em 17 de dezembro de 2014, e os laços diplomáticos foram restabelecidos; encerrando o último capítulo da Guerra Fria no hemisfério Ocidental, fechando as cortinas do século XX. É o fim de um ciclo.
Estamos assistindo aos primeiros clarões da alvorada de uma nova era política.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado. O que passou não voltará: feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.
Às vezes é necessário “morrer”, fechar ciclos, para que se renasça. Vida é renovação!

Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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