FEITO CONVERSA DE BOTEQUIM – José Delfino

FEITO CONVERSA DE BOTEQUIM –
Faz muito tempo. Eu e ele saímos da Casa da Ribeira após o show. Fomos colocar a conversa em dia, lá para as bandas de Ponta Negra. O restaurante estava vazio. Apareceu um amigo em comum e a conversa foi longe. Após ter dado notícia da musa Afonsina, seus carinhos e cuidados, o papo que rolou, fora algumas miúdas exceções, foi só música mesmo. Umas doses de uísque de faz de conta, e bem aguadas. Entremeadas de solos de violão de cair o queixo, que ele tocava como quem não queria nada. Dando aquela falsa impressão de negligência e distração. Como se fosse a coisa mais simples do mundo, tocar violão como ele toca. Imaginei os que pagaram ingresso pra vê-lo naquela noite, ver a gente agora, naquela paz, ouvindo-o tão de pertinho. Amizade tem dessas coisas. Recordações, conversas fiadas, e dicas de ouro que dariam um livro pra quem gosta do assunto. O segredo, por exemplo, para quem tenta imitar o som dos acordes do João Gilberto e não consegue. Um dos inúmeros detalhes seria definitivamente pulsar com força suficiente a quarta corda do violão quando predominarem acordes elaborados com certas cordas soltas (coisa não muito fácil de fazer, até se masterizar a técnica). Aparentemente simples, Nonato Luiz nunca faz concessão no seu modo de tocar peças populares ou eruditas. Quer sejam de sua autoria, ou não. É tudo do jeito dele. Daí a fama adquirida em salas de concerto ao redor do mundo. Dando mais vida à obra de Luiz Gonzaga, dos Beatles e muitos outros. Naquele dado momento, eu cantei um pouquinho só pra provocar: “É o amor/Que mexe com minha cabeça e me deixa assim/Que faz eu lembrar de você e esquecer de mim…! Foi quando ele começou a solar um exuberante arranjo da peça de Zezé Di Camargo & Luciano. Quando eu toquei essa versão pra Mirosmar, Zedelfino… Mirosmar? O nome dele é Mirosmar! (Risos). Quando terminei, ele de olhos arregalados perguntou. Eu fiz isso aí? Fez não, Zezé , essa aqui quem fez fui eu. Saiu dos céus das nossas bocas gargalhadas um tanto preconceituosas. Afinal, não existe música boa ou ruim e sim a interpretação, também boa ou ruim, que cada um faz delas, Zé. Sei que você não concorda, mas a minha melhor composição até hoje, acho que foi “Choro Acadêmico” que está naquele “songbook” que eu te dei de presente. Pois é, tudo é relativo: Jorge Amado e Paulo Coelho foram traduzidos em diversos idiomas. Viu no que deu? É exatamente isso, meu amigo. O funcionamento da aceitação se insere muito no trabalho da mídia. Onde toda e qualquer obra, independente da sua qualidade, funciona feito uma mentira que de tanto se repetir vira verdade. O tal do reflexo condicionado que o Pavlov incutiu no cachorrinho.
Pois é, certa vez, eu estava num avião entre Londres e Amsterdã indo para um Congresso de minha especialidade. E uma senhora ao meu lado, aparentemente uma coroa chata de galochas, daquelas que nunca desviam o olhar em frente. Até quando ela viu com o rabo do olho o que eu estava lendo (O “Zahir” do Paulo Coelho, que eu estava querendo comparar com o “Zahir” do Borges). Em que idioma o sr. está lendo este livro? Em português. Sou Brasileiro. A partir de então a mulher virou a simpática, alegre e fanática fã do Mago.
Parabéns, ela disse! E desfilou sem parar uma sequência interminável de elogios ao escritor até o final da viagem. Me deu até o seu cartão de visita. Era uma executiva. Nunca mais a vi na vida. Continuando, sugeri ele tocar “Rubi Grená”. Em seguida, o “Choro Negro “ do Paulinho da Viola. Lavei a alma. Ele insistiu tanto , que eu me vi forçado a dois solos. Quando terminei , flagrei aqueles olhos meio verdes, meio azuis, feito duas gemas de ovos fritos mal passados esparramadas nas claras. O seu violão é lindo. Nessas horas, esses tipos de mentiras bem intencionadas entre amigos, até que funcionam. A conversa foi até o começo da madrugada. Recheada de risos. Quase ao final, me lembrei de algo. Estava uma ocasião com uma crise de coluna insuportável o que findou numa certa intimidade entre a bela fisioterapeuta e sua vítima. Num dia de RPG ela chega e diz, o senhor sabia que Zezé di Camargo & Luciano vão fazer um show em Natal esta semana? Não diga, estarei lá. Ah ! O Sr. gosta de MPB? Muito. E eu procurando um pretexto pra continuar a conversa. Você gosta do João Gilberto? E ela, com cara de espanto. Quem? João Gilberto, vai me dizer que nunca ouviu João Gilberto? João e Gilberto? Nunca ouvi essa dupla. É legal? Muito, meu amor! Nesses dias vou te dar um CD deles de presente.
José DelfinoMédico, poeta e músico
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1190 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3240 EURO: R$ 5,8330 LIBRA: R$ 6,8250 PESO…

22 horas ago

Prompt injection: entenda o ‘código secreto’ que professor usou para flagrar uso de IA em trabalho

Um professor universitário viralizou nas redes sociais ao contar que reprovou 32 de 35 alunos…

22 horas ago

Conselho autoriza pagamento de R$ 13 bilhões do lucro do FGTS a 138 milhões de trabalhadores

O Conselho Curador do FGTS autorizou o pagamento de R$ 13,04 bilhões relativos ao lucro do Fundo de Garantia…

22 horas ago

Açude rompe e destrói estrada e plantações no interior do RN

O açude Outeiro, um barragem particular na zona rural de Canguaretama, distante cerca de 75 km…

22 horas ago

Menina de 2 anos morre afogada após cair em balde no quintal de casa em Natal

Uma menina de dois anos morreu afogada na noite desta segunda-feira (27) após cair dentro…

22 horas ago

Adolescente suspeito de matar homem em hotel de João Pessoa já foi alvo de 17 boletins de ocorrência, diz polícia

O adolescente suspeito de matar Washington Rodrigo, de 33 anos, encontrado morto em um quarto de…

22 horas ago

This website uses cookies.