ESSÊNCIA… –
Sempre tive curiosidade em entender as palavras que regurgitamos ao longo de nossas vidas, assim como meu pai, que sempre tinha no bolso da velha calça surrada pela lida, além de algum minilivro de faroeste, um minidicionário. Costumo observar as palavras e seus contextos, suas origens, suas modificações através do tempo, bem como, a variedade de interpretações e entendimentos sobre elas. Os ciclos das palavras me interessam por suas evoluções, ostracismos, adaptações, recriações e, muitas vezes, mortes súbitas. É notório em meus textos o uso de alguns neologismos e uma grande carga de dialetos, gírias e palavras regionalizadas. Gosto das expressões populares que contam sobre as raízes de um povo, de um lugar.
Aleatoriamente veio uma palavra em minha mente: ESSENCIA. Fui de carreira tapada para a frente do computador, buscar o seu significado e origem, eu sabia o que significava, mas, eu queria a etimologia e significado formal da palavra… daí já viu né? Viajei… meus pensamentos encontraram vários caminhos e lugares. Gosto de palavras soltas, que me permitam navegar pelo interior delas, ampliando os pensamentos na magnitude e riqueza da diversidade de interpretações cabíveis e quiçá incabíveis mesmo. Esse é o grande lance do pensamento, para mim, é desafiar aquilo que foi pré-determinado, desafiar o óbvio.
Sendo nós seres em constante modificação, onde está nossa essência? ou ela ainda não foi construída? Se a essência só é desvendada após a fase dedutiva, segundo o dicionário, podemos dizer que a nossa essência só se forma quando deixamos de pensar. Haja vista que para se chegar a uma conclusão partindo do pressuposto da dedução, é preciso algumas vezes juntar e outras vezes separar fragmentos das substâncias que irão determinar a essência (como está posto no desmancha dúvidas), pois bem, se a construção do conhecimento é baseada nos erros e acertos, para que a mente mescle o que realmente é importante, não consigo pensar que nascemos com uma essência pré-determinada, se assim fosse, como explicar que ao longo dos anos apesar da separação dos fragmentos, tenhamos errado tanto? É contraditório, não acham?
Quero construir minha própria essência daquilo que me faz feliz, do que me dá prazer, do que minha mente e meu corpo se alimentam, do bem-estar, da paz e da felicidade. Se ao final eu tiver passado da fase dedutiva, se tiver conseguido separar os fragmentos que destroem nosso ser dos fragmentos vitais para uma essência verdadeira, o meu ciclo estará concluído, pois só assim me tornarei imutável.
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora
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