EQUILÍBRIO – Flávia Arruda

EQUILÍBRIO –

Ah, se tem uma coisa que me deixa mortinha de inveja é ver alguém comedido, tranquilo, sereno, sóbrio, controlado… Ufa! Chega a doer tanta harmonia numa pessoa só. Quando vejo gente assim penso: Isso não vale, é jogo sujo! Há um desatino em tudo que nos deixa desconjuntados, desalinhados, não é verdade? Babo só em imaginar o equilíbrio das emoções, disciplinadas pelo bom senso e tranquilidade da alma, regrando intensidades e tempos, isso, sem citar que ainda tem quem tenha a habilidade de juntar todos os tempos, de separar cada tempo.

Tempo de rir, e de ficar sério. Tempo de ir, e de vir. Tempo, tempo, tempo… O tempo das misturas de todos os tempos: O ontem, o hoje e o porvir distraem-se num só tempo, quando os desejos e os quereres invadem a alma e congelam os instantes vividos, lembrados no agora, povoados pelos desejos do continuar. E o amor fugaz? numa tranquila visão, torna-se eterno nas lembranças de quem um dia se fez amar. Creio que isso seja uma arte, a arte de sabermos ser sem deixarmos de ser.

Assisti outro dia uma reportagem que relatava a história de um médico que por duas vezes foi acometido por um câncer, ele contava sua história de luta e vitória, nos dando dicas sobre a alimentação. Dizia-nos sobre os alimentos que nos favorecem sobre o câncer e os alimentos aliados a doença, que cuidam em nos derrotar a cada pedacinho ingerido.

O que mais me fez refletir sobre tudo isso foi, ao final da reportagem, quando ele disse que seus estudos e depoimento sobre os alimentos que fazem bem ou não a saúde, não consistiam em provar que tal fruta ou legumes curem-nos do câncer. Seu propósito era nos convencer que, ao fortalecermos nosso corpo com alimentos saudáveis, estimulamos nossa alma e mente a vencer as dores e angústias que se instalam em nossas vidas.

Tenho uma leve suspeita que aquelas pessoas, que eu morro de “inveja”, sejam adeptas da alimentação saudável. Preciso ir, tenho um cardápio inteiro para montar. Garanto que de segunda-feira não passa, vou cortar coisas e acrescentar outras a minha dieta e juízo. Quem sabe se até o final da semana eu já tenha controlado, um pouco mais, as minhas inquietudes, ansiedades, angústias e incertezas?

Bom, em todo caso, até a chegada do dia que eu darei início a dieta do equilíbrio (lembrando que a segunda-feira sem data nem mês marcado pode ser qualquer segunda-feira de qualquer mês e ano) vou por aqui andando na corda bamba das minhas emoções, afinal se não for para ser intensa, completa e sem reservas nem me chame. E a dieta? Deixemos para segunda-feira.

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora do livro As esquinas da minha existência, flaviarruda71@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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