O PASSADO E O PRESENTE: ESCÂNDALOS, NARRATIVAS E O RISCO DO ESQUECIMENTO NACIONAL –
A recente trajetória política do Brasil demonstra um padrão preocupante: a alternância entre escândalos que ganham destaque e aqueles que são silenciados, dependendo da época, das figuras envolvidas e, principalmente, da narrativa predominante. Não são apenas eventos isolados, mas sim a maneira como a *sociedade é guiada a reconhecê-los ou a deixá-los de lado.
Durante a gestão de Jair Bolsonaro, o debate público foi amplamente influenciado por acusações de natureza comportamental e simbólica. A cobertura da mídia focou em incidentes como o emprego de linguagem imprópria, despesas com itens triviais, presentes recebidos em compromissos oficiais, relações diplomáticas inusitadas, atividades de lazer e polêmicas em torno do cartão de vacinação. Esses assuntos, repetidos incessantemente, geraram a impressão de um governo constantemente envolvido em escândalos.
Independentemente das convicções políticas de cada um, é inegável que, naquele período, as críticas raramente se concentraram em esquemas estruturais de corrupção. O foco estava em comportamentos, discursos e narrativas morais, mais do que em desvios sistêmicos de recursos públicos.
Em contraste, é suficiente recordar a época da Operação Lava Jato, quando o país se deparava quase diariamente com novas revelações sobre corrupção arraigada na máquina pública. Contratos fraudulentos, propinas sistemáticas e somas bilionárias dominavam as manchetes, tendo como epicentro o governo federal sob Luiz Inácio Lula da Silva e indivíduos de seu círculo.
Naquela fase, o Brasil foi compelido a encarar uma realidade desconfortável: a corrupção não era um fenômeno isolado, mas sim algo sistêmico, envolvendo partidos, empresas, agentes públicos e estruturas de poder. Existia, ao menos, uma hierarquia evidente em relação à gravidade dos acontecimentos e uma pressão social contínua por esclarecimentos e responsabilidades.
Atualmente, o país parece estar revivendo esse ciclo, ainda que de maneira diferente. A sucessão rápida de denúncias causa uma saturação informativa. Os eventos se acumulam a uma velocidade tal que o cidadão comum já não consegue acompanhar, analisar ou classificar a importância de cada um deles. A indignação se dispersa antes de ter tempo para amadurecer.
Nesse cenário, surgem discussões sobre relações financeiras e contratuais entre agentes privados e membros do Supremo Tribunal Federal. Ministros como Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli se tornaram protagonistas no debate público, devido a contratos, consultorias e relações institucionais que levantam questionamentos válidos.
O foco não é atribuir culpas, o devido processo legal é essencial, mas reconhecer um fenômeno preocupante: quando as suspeitas recaem sobre instituições que deveriam atuar como limites ao poder, a resposta da sociedade tende a ser mais cautelosa, fragmentada ou rapidamente desviada para outras questões.
Enquanto os holofotes se concentram em certas pessoas ou instituições, outros acontecimentos relevantes acabam sendo esquecidos. A atenção pública é limitada, e sua dispersão pode funcionar, de forma consciente ou não, como uma estratégia política eficaz. Quando tudo se torna um escândalo, nada permanece em destaque tempo suficiente para resultar em responsabilização concreta.
Esse ambiente de constante ruído leva à normalização do escândalo, minando lentamente a capacidade crítica da sociedade.
Neste momento, é inevitável lembrar da famosa advertência do músico e comentarista Juca Chaves, que ironicamente declarou: “No Brasil, se houver pagamento, a mídia divulga até a verdade.” Essa afirmação não menospreza a importância do jornalismo em uma democracia, mas revela um risco constante: a manipulação da narrativa por interesses políticos, econômicos ou ideológicos.
Na realidade brasileira atual, a verdade raramente está completamente oculta. Ela costuma ser fragmentada, relativizada ou submersa por diferentes versões. Alguns eventos recebem atenção ampla; outros, igualmente importantes, são abordados com cautela, adiamentos ou silêncio estratégico. A verdade até existe, mas não flui com a mesma intensidade, ênfase ou continuidade.
Entretanto, a democracia não depende apenas de pleitos regulares ou de instituições estabelecidas. Ela requer uma memória social, informações de qualidade e um jornalismo que possa organizar os fatos de maneira coerente e com responsabilidade pública. Sem memória, a sociedade perde a habilidade de comparar o passado com o presente. Sem comparação, o aprendizado coletivo não ocorre. E sem aprendizado, a história tende a se repetir, não como um evento isolado, mas como um padrão.
O futuro democrático do Brasil necessita de algo mais do que relatos isolados ou reações momentâneas. É necessária uma sociedade que esteja disposta a lembrar, a não relativizar e a não aceitar que os mesmos erros se repitam de formas novas. Portanto, manter a memória social é um ato político essencial. Sem essa memória, o país se move em círculos; com ela, pode finalmente optar por um futuro distinto de seu passado recorrente.
Raimundo Mendes Alves – Advogado, Procurador aposentado e Vereador em São Gonçalo do Amarante/RN
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