ENTRE O AFAGO E O GRITO: O DIFÍCIL CAMINHO DA VERDADE NAS RELAÇÕES HUMANAS – Raimundo Mendes Alves

ENTRE O AFAGO E O GRITO: O DIFÍCIL CAMINHO DA VERDADE NAS RELAÇÕES HUMANAS –

Vivemos em um tempo curioso nas relações humanas. Nunca houve tantas conexões, tantos contatos, tantos “amigos”, e, paradoxalmente, nunca foi tão raro encontrar relações construídas sobre a verdade. Ao observar com atenção o comportamento social, uma constatação incômoda surge quase como uma regra silenciosa: quanto mais falso alguém se mostra, maior tende a ser o número de pessoas ao seu redor; quanto mais verdadeiro alguém é, menor costuma ser o seu círculo de convivência.

Essa realidade não decorre necessariamente de maldade deliberada. Muitas vezes, ela nasce de algo mais simples e profundamente humano: o desejo de ser aceito, aprovado e admirado. Em nome dessa aceitação, muitos optam por dizer aquilo que o outro deseja ouvir, mesmo quando sabem que não corresponde à verdade.

Assim nasce a falsidade socialmente confortável. Ela não confronta, não questiona e não provoca reflexão. Pelo contrário, ela embala o ego com palavras agradáveis, reforça certezas e mantém intactas as ilusões que cada pessoa constrói sobre si mesma. O falso amigo raramente discorda. Ele concorda, aplaude e valida, ainda que silenciosamente perceba que o caminho escolhido pode levar ao erro.

A verdade, por sua vez, possui uma natureza diferente. Ela exige coragem. Não apenas de quem a pronuncia, mas principalmente de quem a recebe. A verdade tem o poder de interromper trajetórias equivocadas, de revelar fragilidades e de desmontar narrativas pessoais que muitas vezes construímos para nos proteger de nós mesmos.

E é exatamente por isso que ela costuma incomodar.

O verdadeiro amigo não é aquele que apenas compartilha momentos agradáveis ou confirma todas as decisões. O verdadeiro amigo é aquele que, diante de um erro evidente ou de um risco iminente, possui a honestidade e a coragem de alertar. Mesmo sabendo que suas palavras podem gerar desconforto, ele escolhe falar.

Essa realidade pode ser resumida em uma metáfora simples, mas profundamente reveladora: muitos preferem ser conduzidos ao abismo com um afago do que serem salvos por meio de um grito.

O afago conforta. Ele preserva a autoestima, evita o constrangimento e mantém a sensação de que tudo está sob controle. Já o grito, embora necessário em determinadas circunstâncias, rompe o silêncio, desperta a consciência e obriga a encarar aquilo que talvez preferíssemos ignorar.

Por essa razão, a verdade costuma ser solitária. Ela não se adapta facilmente a ambientes onde prevalece a busca permanente por aprovação. Quem decide viver com autenticidade inevitavelmente experimenta um processo natural de seleção nas relações. Algumas pessoas se afastam, outras permanecem, e poucas compreendem verdadeiramente o valor da sinceridade.

Com o passar do tempo e das experiências da vida, aprendemos que a quantidade de pessoas ao nosso redor não define a qualidade das nossas relações. Multidões podem se formar em torno da conveniência, do interesse ou da superficialidade. Já a verdade, silenciosamente, funciona como uma espécie de filtro moral, separando presenças circunstanciais de vínculos genuínos.

A autenticidade tem, portanto, um preço. Ela exige disposição para perder aplausos fáceis e para abrir mão de convivências baseadas apenas na aparência. Contudo, em troca, ela oferece algo infinitamente mais valioso: relações construídas sobre respeito, confiança e lealdade.

Isso também nos ensina que dizer a verdade não significa agir com arrogância ou agressividade. A verdade que constrói é aquela que nasce do respeito e da responsabilidade. Ela não busca humilhar nem impor superioridade moral. Pelo contrário, ela se manifesta como um gesto de cuidado, ainda que venha acompanhado de desconforto momentâneo.

No fundo, a grande questão da vida não está apenas em encontrar pessoas que falem a verdade. A verdadeira maturidade está em sermos capazes de ouvi-la.

Porque crescer exige confronto interior.
Amadurecer exige reconhecer limites.
E evoluir exige aceitar que nem sempre estamos certos.

Talvez seja exatamente por isso que tantos preferem o afago enganoso ao grito salvador. O afago preserva a ilusão. O grito, embora duro, pode salvar destinos.

A vida, com o tempo, revela uma lição simples e profunda: é melhor caminhar com poucos que tenham coragem de dizer a verdade do que estar cercado por muitos que apenas confirmem aquilo que queremos ouvir.

Porque os que apenas afagam podem nos acompanhar por conveniência.
Mas são aqueles que têm coragem de gritar que, muitas vezes, nos impedem de cair no abismo.

 

Raimundo Mendes AlvesAdvogado e Procurador aposentado
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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