ENTÃO CHEGA O CARNAVAL –
Em Maceió, a vida se aventura em passos miúdos e ousados, sendo nesse chão comum que alegria e agonia se encontram sem pedir licença, misturando-se na mesma bacia das almas, onde cada um lava suas dores com a água que consegue carregar.
Alguns chegam com baldes cheios, outros apenas com as mãos em concha, mas todos mergulham sentimentos parecidos: medo, esperança, desejo de ser visto, anseio por pertencimento, o que muda é a moldura que os envolve.
Então chega o Carnaval, tempo em que o mundo se inclina, a ilusão assume o comando, intervalo sagrado de desordem consentida, e com ele, a suspensão provisória das castas, a licença poética da existência, todos expõem suas tristezas com risos e purpurina, vestindo liberdade, no palco das ruas que acolhe o que o ano inteiro reprime.
Época em que, “Pierrots e Colombinas” emprestam ao corpo a euforia que o calendário costuma lhes negar. É como se suas almas, cansadas de contenções, ganhassem permissão para transbordar, espalhando o gargalhar sem endereço fixo, enquanto o choro encontra ritmo, e a esperança, ainda que breve, aprende a desfilar.
Na orla da Pajuçara, seguindo o bloco Nêga Fulô do Carlito Lima, o suor do rico e do pobre escorre com o mesmo sal, o alto e o baixo se encontram no passo, todos se reconhecem no compasso do frevo. Ali, o corpo não pede documento, alegria não pergunta origem, a música dissolve fronteiras.
O frevo alagoano caminha rente ao mar, sem disputar espaço com prédios altos, prefere a brisa, o azul sem pressa. É dança que respeita a ginga do outro, mas não perde o ímpeto, porque tradição também sabe ser leve, na força do Pinto da Madrugada, dos Filhinhos da Mamãe e Vulcão, que já estão na rua…”. Ali não há plateia, todos são cena, todos são verso vivo em poema que se escreve com braços abertos.
Por alguns dias, Maceió lembra de que é possível ser inteiro, de que das partes invisíveis da cidade pode transbordar festa, não apenas feridas, e quando o último acorde silencia, fica na memória, a prova de que, apesar das camadas sociais, dos muros e das distâncias, há momentos em que somos apenas humanos, dançando juntos, sob o mesmo sol.
Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras
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