EM LOUVOR DA MINEIRIDADE –

Muita gente percebe que os mineiros têm uma coisa em comum, mas ninguém tem uma resposta objetiva para explicar essa identidade regional. Guimarães Rosa complica mais do que explica. Ele diz que Minas Gerais é muitas. Afirma que o mineiro é um otimista através do pessimismo e que o mineiro é velhíssimo. A definição roseana é instigante e intrigante, ou seja, estimulante e misteriosa.

A minha experiência com mineiros é pequena, porém altamente expressiva. Tento descobrir o elo oculto que une mineiros notáveis.

Pedro Nava. Sentindo dores nas articulações, marquei consulta com o maior especialista brasileiro em reumatologia. Bem recebido, o mestre ofereceu-me café. Respondi: quero não, obrigado. Ele logo comentou que achou excelente a posposição da negativa. Um nordestino que sou. Disse-lhe que estava ali por indicação do meu irmão Daladier que é médico. E ele: “Lembro dele, inteligente, participa de congressos, tem cerca de 45 anos de idade”. A consulta transformou-se em conversa literária. Ele me examinou meticulosamente.

No final, lembrei a minha receita e disse que meu irmão afirmara não o ter conhecido. Como que soubera de Daladier? A resposta naveana: “Meu caro Watson, seu irmão é inteligente, esta turma jovem participa de congressos e Daladier só teve alguma importância na história em 38/39, iria evitar a Guerra. Seu pai impressionou-se e lhe deu o nome”.

Juscelino Kubitschek. Tive o privilégio de estar presente à visita e conversa, numa tarde, em que Juscelino esteve na casa de Câmara Cascudo. No meu canto, bebia as palavras. Riquezas culturais de Minas, personagens. O Presidente deixou a assinatura na parede. Em um dado momento, Juscelino, em tom de mágoa, disse: “O senhor criticou Brasília”! E Cascudo “Que é isso, Presidente? Eu apenas lamentei não haver traços da arquitetura colonial brasileira. Brasília é uma cidade fantástica, poderia ter sido construída no Canadá ou na Austrália…”. JK sorriu. E mudou de assunto.

Constância Lima Duarte é uma dessas pessoas que nos fazem sentir que vale a pena ser brasileiro. Deu visibilidade nacional a Nísia Floresta Brasileira Augusta, com suas pesquisas de escritora admirável. Juntamente com Diva Cunha, valorizou os escritores do nosso Estado.

É sabido que o passado não esquecido torna-se lição para o que há de vir. Os acontecimentos trágicos devem indicar novos caminhos para a humanidade.

Todo o Brasil e os humanos que merecem esse nome sofrem solidários em face das tragédias de Brumadinho e de Mariana. Mais de três centenas de mineiros profissionais sepultados vivos, num forço tornado cinzas a sua carne, sangue, memórias de entes queridos, vida futura.

Como imaginar a dimensão da dor na especificidade do povo mineiro?

A sua histórica resiliência, ajudados por Deus, fá-lo-á ter forças para trazer o bem às novas gerações.

 

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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