EM FUNÇÃO DO QUE ME DIZEM E QUE EU ACHO – José Delfino

EM FUNÇÃO DO QUE ME DIZEM E QUE EU ACHO –

Não me admiro, ou esquento muito, com o que me vem à cabeça. Nem com a dúvida que vem junta. Me deparei, agora mesmo, pensando se realmente gosto de “esportes de massa”. Claro que gosto. Apesar de “esporte” ser um termo relativo e todo o mundo ter algo a dizer diferente sobre eles. Os que demandam exercícios físicos mais simples são os que eu mais gosto e pratico.

A leitura, os levantamentos de copos, os arremessos de cuspe e guimbas de cigarros nos cantos mal varridos dos bares da vida. Esses sim, e de um certo modo, emolduram os quadros que se pintam ao sabor das conversas fiadas. O fato é que o ser humano nunca soube onde fincar no lugar certo o seu prazer. Fora o sexual, no sentido prático do fluxo e do contra-fluxo dos órgãos envolvidos na parada. Este sincronizado, inalienável e sagrado direito de ir e vir, até gozar. Afinal, a fisiologia corporal dos mamíferos estruturada está neste sentido. Do prazer como incentivo e prêmio à tentativa da procriação ou ao do prazer pelo prazer, a efêmera simplicidade que alberga na vida a fugaz felicidade de cada ser humano.

Os estóicos atacam, os epicuristas defendem, os Aristotélicos não acertam o lugar comum . As posições modificam-se segundo as épocas e circunstâncias e continuam a haver mudanças de posições e indecisões. Eu também as tenho. Adoro concursos de misses. Ir até a praia, sem me molhar, numa rolé aleatória e superficial só pra ver as fêmeas com suas coxas roliças e aquelas bundas imensas (por aqui, e até agora, um tanto refratárias aos implantes de silicone), a serviço de um erotismo bem latino.

Na “pátria das chuteiras”, me pergunto, se será sempre o futebol “o acima de tudo”, com o seu característico gozo e dor coletivos. Aquele sexo grupal simbólico e desesperado. Por que não , o vólei, o basquete, a sinuca, o bilhar, o box, o tênis ou o ping-pong ? Longe de mim querer por ordem na confusão. Talvez questão de cultura de cada país, ou talvez só de um maior espaço físico para vê-los e praticá-los.

Até que daria uma tese acadêmica e das boas, pois neste país, o futebol é “o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”. Todos devem saber que o futebol (do inglês “football association ” ou simplesmente futebol) é um jogo de azar de equipe, jogado entre dois times de 11 jogadores cada um e um árbitro que se ocupa da correta aplicação, via de regra, das regras ( apesar do “via de regra” também ter um significado simbólico especial por estas paragens).Tudo isso limitado a um gramado imenso e dois retângulos sólidos, a serem vazados toda vez que a bola entra e “ balança o filó ( nos primórdios inexistia a rede ). Tudo limitado a um período variável de tempo.

As inferências são muito interessantes, pois elas retratam o modo das pessoas verem as coisas de ângulos diferentes. A literatura mundial sobre o assunto está repleta de aforismos. Os que me lembro agora: “O que sei sobre a moral e as obrigações dos homens devo ao futebol”; “ A cada gol que marco, parece que emagreço um quilo. Tomara que continue assim e eu acabe sumindo de tão magrinho”; “Muitas vezes é a falta de caráter e esperteza que decidem uma partida”, o que remete ao “Fiz o gol com a minha cabeça e a mão de Deus”; “Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos e muita concentração”, o que fecha com o que disse Neném Prancha: “Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia uma”; e quando ele fulminou com a lógica suprema. “Futebol é muito simples: quem tem a bola ataca, quem não tem, defende” , mesmo que dizer “quem na vida nada faz, leva”.

Por sinal, vi o jogo da desclassificação. E já que não poderia haver empate, dei ponto aos dois, ao tal do “futebol-arte” e ao tal “futebol-foco”. Só não tomei uma cerveja belga perdida na geladeira, com medo do remorso e de não entenderem o meu romantismo. Aquilo pra mim era antes de tudo a admiração da estética coletiva vista da TV. O meu prazer era aquele . A constatação do enigma, por sinal muito explicativo, como bem colocou uma vez Vujadin Boskov, que treinou meia Europa ( lembram dele?) ; “Futebol é Futebol”. Nunca se deveria confundir as bolas.

A verdade é que deveríamos fazer da vida um jogo de futebol, chutando as tristezas, driblando as dificuldades e marcando cada qual o seu “goal” individual ( verbete traduzido do inglês como “objetivo” ) de alegria. Invista na sua trave, pois orgasmo é orgasmo independentemente de ser físico ou mental, solitário ou a dois, coletivo ou não. Por oportuno, a Copa do Mundo pra mim vai terminar domingo. “Este ( um outro, aliás, e o grifo é meu) aspecto … está resumido num aforismo que gostava (Machado de Assis) de repetir , com ligeiras variações, que “a morte é séria e não admite ironia”.

 

José DelfinoMedico, poeta e músico
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