EL NIÑO, CLIMA EXTREMO E A ILUSÃO DE QUE AINDA HÁ TEMPO – Sara Natália

EL NIÑO, CLIMA EXTREMO E A ILUSÃO DE QUE AINDA HÁ TEMPO –

O avanço do fenômeno El Niño não é apenas uma questão meteorológica. É um teste de inteligência coletiva. Enquanto dados científicos apontam para temperaturas recordes, eventos climáticos extremos e impactos econômicos diretos, parte do debate público ainda insiste em tratar o clima como abstração ideológica, algo distante, negociável ou adiável.

Não é.

O El Niño atua como um amplificador de fragilidades já existentes. Onde há infraestrutura precária, ele expõe o colapso. Onde há planejamento frágil, ele acelera o caos. Secas mais severas, chuvas concentradas, prejuízos agrícolas, pressão inflacionária e crises energéticas não são previsões alarmistas. São efeitos previsíveis de um sistema climático em desequilíbrio.

O problema central não é o fenômeno em si, mas a incapacidade política e institucional de lidar com ele de forma racional.

O impacto econômico é imediato. A instabilidade climática interfere na produção de alimentos, pressiona preços, afeta exportações e compromete o crescimento. Países que não incorporam o risco climático em suas decisões fiscais, energéticas e logísticas caminham para ciclos recorrentes de crise. O clima deixou de ser variável ambiental. Tornou-se variável macroeconômica.

Ainda assim, o debate público segue superficial. Discute-se o clima como pauta moral, não como questão estratégica. Perde-se tempo disputando narrativas enquanto o custo da inação se acumula silenciosamente.

Há um erro conceitual grave nessa abordagem. Acreditar que desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental são forças opostas. Não são. Ignorar o clima é comprometer o futuro produtivo do país. Nenhuma economia prospera em ambientes instáveis, imprevisíveis e sujeitos a choques constantes.

O El Niño também escancara a desigualdade. Eventos extremos atingem de forma desproporcional os mais vulneráveis, aprofundando assimetrias sociais e pressionando políticas públicas já sobrecarregadas. Quando o Estado falha em antecipar riscos, a conta chega primeiro para quem tem menos margem de proteção.

O que está em jogo não é apenas o clima, mas o nível de maturidade institucional de uma nação. Países inteligentes planejam. Países reativos improvisam. A diferença entre eles se mede em perdas evitáveis.

O tempo da negação acabou. O tempo da retórica vazia também. A pergunta que se impõe é simples e incômoda. O Brasil seguirá tratando o clima como discurso ou o assumirá como prioridade estratégica?

O El Niño não espera consenso político. Ele acontece. E cobra.

 

 

 

 

 

Sara Natália – Graduanda em Direito

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

Mito derrubado: fatores emocionais não causam câncer na maioria dos casos, aponta estudo global

Acreditar que o estresse, o luto ou o sofrimento emocional podem causar câncer é uma…

1 dia ago

Cientistas descobrem que tumor pode ‘se alimentar’ de antioxidante do próprio corpo (e isso pode virar estratégia contra o câncer)

Uma substância conhecida por proteger as células do corpo pode, na prática, estar sendo usada por…

1 dia ago

Contratos de R$ 6,3 bilhões entre Master e Tirreno tiveram firma reconhecida dois dias antes de serem apresentados ao BRB

Um relatório interno do Banco Regional de Brasília (BRB) aponta que os contratos de operação de…

1 dia ago

Casal suspeito de roubos e golpes contra gays e trans é preso em Natal

Um casal suspeito de praticar roubos e extorões principalmente contra homens gays e mulheres trans…

1 dia ago

Governo federal faz mais duas trocas em ministérios antes das eleições

Mais dois ministros do governo federal deixaram formalmente seus cargos na quarta-feira (1º). Edição extra…

1 dia ago

Em discurso no Dia da Mentira, Trump se perde em declarações confusas para traçar o fim da guerra

No pronunciamento em horário nobre e programado para o Dia da Mentira, foi mais difícil…

1 dia ago

This website uses cookies.