EDITOR DE TEXTO – José Delfino

EDITOR DE TEXTO –

ELE ENTROU NO QUARTO. LIGOU O EDITOR DE TEXTO. E COMEÇOU A ADMINISTRAR O BRANCO QUE IA DA CABEÇA DELE AO BRANCO DO ECRAN DO COMPUTADOR. RESPIROU FUNDO. COMEÇOU TATEANDO: “Aprendi por experiência própria muita coisa na vida. Uma delas, como não é fácil viver neste mundo. Quando eu era menino fui muito mimado. Dizem que as pessoas voltavam a atenção a mim. BREVE INTERRUPÇÃO. “Tal talento não me levou a lugar nenhum. A não ser da calçada da rua para dentro de casa. Para ser sincero, quando me dei conta de mim descobri que fui tolo e insignificante durante parte da minha existência. De uma certa maneira , ainda sou assim”. PAROU UM INSTANTE PRA PENSAR. EMBORCOU A DOSE DE UÍSQUE. CONTINUOU ESCREVENDO. “Em certo sentido parece que fui eu mesmo que me estraguei”. FOI QUANDO ELE LEMBROU DELA. SEMPRE NO PENÚLTIMO ASSENTO DO ÔNIBUS CIRCULAR QUE PASSAVA PELO COLÉGIO DELA E LOGO APÓS CONTORNAVA A CIROLÂNDIA. “Quando o ônibus parava na esquina do Marista eu subia nele. Eu gazeava aula só para vê-la. Ela nunca soube disso, acredito. Os olhos dela fechados recebendo lufadas do vento morno do final da manhã no rosto. Serena como uma deusa. Os lábios pequenos e finos como se traçados por uma régua. A rima deles como se moldada com uma faca bem fina. As pálpebras cerradas. Mas que eu sabia quais olhos surgiriam no momento em que elas se abrissem. O rosto furtivamente virado para a janela. Parecia que irradiava um brilho de paz de calor próprio. Difícil descrevê-la minuciosamente. O real se tornava irreal nos mínimos detalhes. UMA PEQUENA PAUSA PARA VOLTAR A ORDENAR AS IDEIAS. “Ela parecia bem mais velha que eu. Como se a relação causa efeito estivesse desordenada. Durante quase meio século a imagem dela viveu na minha mente. Da menina que parecia não ter força para abrir as próprias pálpebras. A respiração sutil, dava pra notar. As batidas do coração bem leves, mera suposição. Parecida que estava, sempre alheia ao mundo”. “Encontrei-a dia desses num restaurante, com o marido e rodeada de filhos e netos, me pareceu. Um deles claramente pronunciou o nome dela. Fitei-a ligeiramente. A face dela, impassível, denotou nunca ter me visto. Nem me conhecer, aparentemente. Me senti momentaneamente inútil. Sem norte, sem sul , nem leste ou oeste . Como quem perde uma batalha. Como os que fecham as suas portas e janelas só depois de roubados”. “Continuo tentando viver a minha vida. Provavelmente, de um jeito melhor que antes. Sem dar tantas voltas. Mas seja como for eu precisava ao menos contar isto. Se não lhe interessa, perdoe o inconveniente. Pois a vontade que tenho, também, é de cair num sono profundo e calar. Mas aprendi durante todo este tempo que as palavras alegres fazem com que os tímpanos vibrem contentes. E lembranças, algo a causarem certos desconfortos. QUE DIABO! BEM UMA MEIA HORA PARA CHEGAR AO FIM DE UM MODO QUE APARENTEMENTE ME FIZESSE BEM: “Enfim , certos martírios se antecipam nos sons de pautados silêncios”. VENCIDO , ELE DELETOU O TEXTO E FOI DORMIR.

 

 

 

 

José Delfino – Médico

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