DO TEMPO QUE ME RESTA –

“Quando alguém te escuta é bom falar o que você sente”. (Josuá Costa).

Da estação ouço o longínquo piui! piuiii! do trem que se aproxima. Diferente do ânimo de quem espera o vagão para percorrer logo o seu caminho, quedo-me em silêncio por entender que, exatamente, hoje é o ‘primeiro dia do tempo que me resta’.

Na bagagem nada tenho de real para levar. Apenas aquele sorriso, aquele abraço, aquela saudação, aquela mão que me amparou e, o mais que ficou grudado no meu peito pela cola da gratidão.

Não sei medir a grandeza de cada gesto, de cada “siga em frente”, de cada presença de Deus em você. Mas sei o valor que a minha vida teve, ao ser compartilhada com cada um “o próximo”.

Se hoje o trem da vida não parar na estação transferirei esse dia para amanhã. E amanhã então, passará a ser esse ‘primeiro dia’.

Pensei em mudar de estação, talvez para uma bem longe, onde não devesse o piui! piuiii! me alertar da proximidade do parar do trem, por uns instantes, na estação.

Não conheço de perto esse trem, não sei as suas cores, de quantos vagões, se vem cheio, se entrarei no primeiro ou no último. Será que poderei fechar os olhos e deixá-lo passar? Será que poderei retomar minha bagagem e comprar um outro bilhete para um tempo mais à frente? Quanto tempo?

Não sei se terei forças para arrastar a mala ao recomeço de uma nova experiência. Pergunto até: por quê? Por que haveria de isso acontecer?

Mas, eu estou na estação, o apito do trem já escuto mais alto.

O bater do coração já se modificou. O suspirar e o aspirar já se ‘estranharam’ e o meu sopro já se parece com a da locomotiva que estaciona.

A expectativa é: qual o vagão que abrirá a porta para a minha entrada?

Quando a porta abriu nem contei em qual. Mas, deu para perceber alguns rostos conhecidos e confiantes, como se estivessem apenas dando uma voltinha pelos trilhos que não me davam nenhuma pista, do onde vinham e para onde iam. Quando entrei, sentei-me na única poltrona livre, ajustando o corpo facilmente à forma do assento.

A porta fechou lentamente e ao olhar pela janela translúcida, tomei um susto pois na estação estavam uns tantos  “eu”: eu criança, eu jovem, eu adulto, eu maduro, eu idoso, todos sorridentes e dando-me adeus em abanos lentos de suas mãos.

Mais surpreendente foi olhar para o interior do vagão e não ter mais ninguém, a não ser eu mesmo com minhas lembranças.

Gratificante foi entender o quanto todos vocês me foram caros e o quanto se ofereceram em ajudas e em confortos, em todos os dias de minha estada com a família, com os amigos, com os afins e com os que cruzaram a minha trajetória nos circunstanciais encontros da vida.

Uma sensação de alegria e gratidão veio à tona ao lembrar daqueles com quem brinquei, daqueles que me educaram, daqueles que me ensinaram, daqueles que me embalaram, daqueles que me  acolheram, daqueles que seguram em minhas mãos, daqueles que rezaram para os alívios angustiantes que experimentei.

O atrito das rodas do trem foram aliviadas e o movimento era iminente.

Piui!… Piuiii!

Talvez eu volte!

Afinal aprendi a dizer e a crê em “Se Deus quiser”.

Da janela, o verdejante campo da esperança cingida pela mão divina.

No olhar infinito do destino, meu coração explode em êxtase e, do tempo que me resta, digo silenciosamente: te amo.

Piui!… Piuiii!

 

 

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil, escritor e Membro da Academia Macaibense de Letras (josuacosta@uol.com.br)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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