DIÁLOGO NACIONAL & GOVERNABILIDADE –
O Brasil vive o prelúdio de mudanças sociais, econômicas e políticas inadiáveis. Não há como negá-las.
O fundamental é discutir como fazê-las, pesando e medindo as consequências, não apenas em relação às exigências impostas pelo “mercado”, mas igualmente a preocupação prioritária com as pessoas humanas, que irão beneficiar-se, ou serem injustamente penalizadas, pós-aprovação das reformas.
Considera-se pré-condição para mudanças estáveis, o “diálogo nacional”, que começaria pela prioridade dada aos temas que levem à unidade, afastando aqueles que dividem. Nunca será tarde iniciá -lo.
Essa estratégia significa respeito recíproco, diante da diversidade e diferenças naturais existentes.
O objetivo seria priorizar “doutrinas” e não as “ideologias”, pelo fato de que as últimas incentivam o dogmatismo, o radicalismo e a intolerância.
A experiência humanista do mundo demonstra, que somente sobrevivem as doutrinas, entendidas como princípios, que se adaptam as circunstâncias do tempo e do espaço.
A propósito de inspiração para a montagem de um “pacto nacional” no Brasil, lembro sempre as lições de Zygmunt Bauman, o chamado “profeta da pós-modernidade”, já falecido, que fogem das abstrações e analisam o mundo como ele é.
Referindo-se ao liberalismo, ele lembrava o seu fundador, John Stuart Mill, que dialogou com o socialismo, por acreditar que para implementar programa liberal da liberdade humana é necessária distribuição justa de oportunidades, diminuindo a distância entre os mais ricos e os mais pobres da sociedade.
Em suas análises, Bauman cita Lord Beveridge, criador do Estado de bem-estar social britânico, que não era socialista. Liberal, ele defendia que a liberdade dos seres humanos dependia da eliminação das desigualdades sociais e de chão firme no qual todos se apoiassem.
Em matéria de desigualdade social, o quadro brasileiro é dramático. Nenhuma outra nação democrática concentra mais renda no 1% mais rico, que o Brasil, segundo a constatação da pesquisa “Desigualdade Global”, que percorreu oito países em quatro continentes, ao longo de cinco meses.
Do final de 2014 até junho último, a renda per capita do trabalho dos “super-ricos” subiu 10,1%.
Já o rendimento dos 50% mais pobres registrou queda de 17,1%.
O Brasil também viu sua classe média empobrecer.
De 2001 a 2015, esse grupo perdeu participação nos rendimentos totais, de 33,1% para 30,6%.
Diante de tais circunstancias, o único caminho de superação da atual crise nacional seria o “diálogo” ensaiado em junho passado, por iniciativa dos três poderes, porém “sepultado”, até hoje.
Deus queira que ressuscite!
O dialogo democrático, nos moldes da coalizão política do Chile, ampla e pluralista, denominada “Concertación”, facilita a estabilidade política e a preservação da governabilidade, reduzindo custos sociais e dando legitimidade ao sistema político.
Tais acordos de governabilidade, historicamente se viabilizaram, em função de sólida visão do desenvolvimento nacional de longo prazo, baseado em propósitos comuns a todas as forças políticas, independente de rótulos de esquerda ou de direta, buscando valores como paz, a justiça social, a equidade, a superação da pobreza, a integração regional e a plena vigência da democracia.
Voltando às teorias de Zygmunt Bauman, as doutrinais sociais e econômicas, por mais divergentes, sempre convergem para dois valores indispensáveis à vida humana decente e digna – liberdade e segurança -, que somente serão alcançadas de forma conjunta.
Para defender tais princípios, não é necessário invocar “esquerda” ou “direita”.
A democracia é o meio de viabilizá-los. As ideias não têm rótulos. Elas têm conteúdo.
O grande empecilho são aqueles grupos radicais, dogmáticos, islâmicos, de esquerda, ou direita, que semeiam a divisão, sugerem o uso da força e do autoritarismo, métodos que não obtiverem sucesso em nenhum lugar do planeta.
O mais grave é que os prisioneiros dos dogmas e “proprietários da verdade” inviabilizam totalmente o diálogo.
Embora em extremos, eles convergem na busca de semear o caos e a intranquilidade social, como meio de atingirem seus objetivos de dominação.
Na verdade, o que lhes interessa será sempre “o quanto pior melhor”, que sepulta os sonhos de bem estar e da verdadeira democracia.
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