DESUMANIZAÇÃO –

Seguindo o mesmo ritual da escritora e poeta Nara Rúbia Ribeiro, inspiradora, de quem roubei algumas ideias preocupantes; também sou madrugador e, por força da necessidade de me ver integrado, preso, no mundo; cedinho, ligo a TV e o Notebook.

Leio algumas manchetes, antes mesmo do café e da caminhada diária. Isso me dá a ilusão de que sou um ser bem informado. Pois, sim.
Vou tentando entender, ou pensando que estou entendendo.

Acompanhem.

O momento por que passa a humanidade é de grave retrocesso. A alienação / individualismo, aliada com a ignorância e a intolerância, vem formando um perigoso tripé que torna países e regiões cada vez mais perigosos para as chamadas “minorias”, sejam essas culturais, religiosas, cor da pele, orientação sexual, processos migratórios; incluindo violência verbal e física, assassinatos, torturas, extremismo político, e ódio a tudo que é diferente (o “eles” e “nós”).

Com uma sociedade cada vez mais induzida em adquirir bens materiais (ter mais), postar tais bens nas redes sociais, confundindo isso com felicidade; vivemos um período de pouca reflexão, e muita ostentação. As regras da civilização foram quebradas, e o instinto de sobrevivência tomou conta do homem contemporâneo. Como ensinou Saramago: “uma cegueira moral”. O resultado é um doloroso vazio existencial.

A sociedade, que bem sabe evocar as leis quando é colocado em xeque algum de seus direitos patrimoniais, vale-se de um mecanismo muito sutil para mentalmente subverter os valores que ela própria instituiu: hierarquiza os seres humanos valendo-se de indicadores diversos, mas preponderantemente econômicos, de modo que – quanto mais baixo alguém estiver na “pirâmide social”- menos humano é.
E, se não é humano, é considerado indigno de ser protegido pelos direitos inerentes à nossa espécie, o que serve de pretexto a atos de absoluta barbárie.

O leitor sabia que – na tentativa de legitimar toda a sorte de maus tratos à mulher, religiosos, já na Idade Média, travaram severas discussões: se a mulher e os escravos teriam, ou não, alma?

Para algumas religiões, aqueles que professam a sua fé são os filhos (machos), e as meninas, são meras criaturas. Ora, uma vez que não são filhas de Deus, e não possuem filiação e proteção divinas, podem ser hostilizadas e tidas como inferiores. Uma lógica aterradora!

Por vezes, a inferioridade é tamanha que as suas existências ofendem os “corações religiosos”, que reagem com torturas e homicídios. Quem leu sobre as Cruzadas, a Inquisição, e tantas outras mortes por motivação religiosa no decurso da História, sabe do que estou falando.

Atitudes e pensamentos que ainda estão em nosso ‘inconsciente coletivo” (ver Jung).

É na desumanização do homem que se apoia o genocídio, tanto no passado quanto nos dias de hoje. Na visão fanática, que deu ao nazismo contornos similares ao fanatismo religioso, os judeus nada mais eram do que “porcos a serem sangrados” para a higienização do planeta; e assim o fizeram com esmerado sadismo, legando à humanidade a vergonha do Holocausto (assassinato de cerca de seis milhões de judeus -1941 a 1945).

Hoje, a indiferença com que encaramos a segregação dos negros, a discriminação dos pobres, o desprezo pelos migrantes, a demonização do infrator, a subjugação da mulher, a estigmatização e o desrespeito pelo diferente (“eles” e “nós”) condena-nos a todos.

Aquele que se conforma com a injustiça é tão injusto quanto aquele que a pratica.

Uma adolescente moçambicana filosofou: “O nosso único pecado é sermos miseráveis”.

Ou seja, desumanizamos o próximo, culpando-o por sua miséria, moral ou econômica.

Na visão doentia de muitos, o pobre é um estorvo. Um nada. “É um entulho na calçada do mundo”, diria o homem apressado que quase tropeçou na criança que dormia na rua…

Neles tropeça também a nossa política não inclusiva e o nosso capitalismo globalizado; sempre cego a quem não tem dinheiro no banco.
É junto a esses pobres mendigos a quem roubamos o direito de ser gente que se entulham também o humano que somos. Ou fomos.

Resumo da ópera: Somos coautores da miséria moral de um tempo de desumanização.

 

Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com – www.opiniaopolitica.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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