Diógenes da Cunha Lima

São aquarelas, bicos de pena, pastel, lápis. O escritor-desenhista Saint-Exupéry sabe unir as letras aos símbolos, integrando-os totalmente. Seu pensamento é nitidamente visual. Das suas mãos, nascem – sobre folhas soltas, guardanapos, blocos de hotel, à margem de cartas, cadernos – retratos realistas dos companheiros, caricaturas de suas irmãs, soldados, expressões de cabeças humanas, patos, cervos, cavalos. Tudo o que impressiona fortemente o escritor.

Napoleão Bonaparte é retratado com simpatia, outras vezes o imperador perde toda a imponência. É transformado em jarro, quase um bule, com asa no dorso. Outras vezes, a fantasia comanda a realização do desenho como o da mão isolada e misteriosa abrindo uma porta. Originais são os campos de estrelas-flores, estrelas que nascem de ramos, bela união da terra com o universo.

Para o artista plástico Saint-Exupéry, as mulheres ocupam posição especial, fantásticos os seus retratos, personagens, caricaturas, mulheres nuas e bailarinas em azul.

Em O Pequeno Príncipe, as ilustrações são poemas em cores.  Pode-se dizer que são do texto e despertam em nós a emoção poética pela interação, amável simplicidade, lirismo, mistério. O crítico japonês Hayao Miyasaki, um dos encantados com os desenhos, afirma: “Impõem-se a nós como instantes milagrosos que cristalizam, sob forma visível o espírito do autor.” Salvador Dalí já havia chamado a atenção: “O pintor não é alguém inspirado, mas alguém que inspira os outros”.

Domina o texto a aquarela do Pequeno Príncipe heráldico: cabelos de ouro, comando real, espada, longas botas, uma flor feito gravata e verticais estrelas douradas sobre elevadas dragonas. A imagem apresentada à nossa percepção é sinal linear e cromático com significação mágica, inconfundível.

Quando e onde nasceram os desenhos do Pequeno Príncipe? Sem dúvida, são fruto de longa elaboração no espírito de Saint-Exupéry. Sua mãe, Marie, poetisa, ensinara-lhe a pintar. Os estudiosos conhecem os seus desenhos preparatórios.  Em Natal, muitas pessoas notaram “coincidências” muito coincidentes com a cidade: dunas, estrela símbolo, semelhança do mapa do Estado com a forma do elefante, falésias, o único vulcão extinto com forma de vulcão no Brasil (o Cabugi), flores de curta vida, como as xananas.  Sobram distantes analogias: as sementes do baobá vieram da África na barriga de aves migratórias, com o voo de pássaros selvagens?

A certeza é que Saint-Exupéry deitou em nossa terra sementes de admiração por ser genial em tudo o que fazia, por sua obra terna, lúcida, imortal.

Diógenes da Cunha Lima – Escritor, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

 

 

Ponto de Vista

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