DE RUMO –

O nosso ritmo biológico é cego e implacável. A gente nasce, cresce, reproduz, morre e, a rigor, qualquer estética ou estilo cultivado é como um disfarce. O chapéu que esconde o nosso olho. Vivemos a vida (ou deveríamos, pelo menos) e avançamos. Para isto nascemos, crescemos, namoramos, casamos, separamos, casamos de novo. Juntamos os cacos. Saúde e doença confundindo-se entre si.

De olho no espelho, me acho gordo e a gordura, como a distribuição de renda do país, sempre seletiva (no caso) ao meu basto e aquinhoado abdome. E penso. Perseguimos a tentativa de harmonização de algumas maravilhas do nosso mundo interior inseridas no encontro, na observação, na afeição, na paixão, no amor, no ódio e no final (não necessariamente) feliz. Como num verso ou poema, onde a distribuição de sons neles se repetem, em intervalos distintos ou em espaços sensíveis quanto a duração. O que reproduzimos e semeamos em vida é arte de cada um. A nossa visceral contribuição para os outros. O que os fariam entender melhor os nossos conflitos e o tempo em que vivemos.

Claro, um pai dá sempre a impressão de sempre se mostrar mais sábio. E mais qualquer coisa boa que os outros  Porém, só transmite o que sabe. E como dizem, tudo, de uma certa forma, tende a ser relativo. Certos detalhes das coisas só sabem os caçadores, por exemplo. O ângulo do tiro, o breu do animal selvagem na escuridão da noite. O rebuliço que fazem na ventania as folhas mortas caídas de um pé de sapucaia. A pisada da onça e da anta no chão da selva. Diferenças que só podem ensinar os que caçam. Os pescadores, também, todos os nós de fazer rede, as diferentes fisgadas dos peixes no rio; a qualidade e a direção do vento, a cor da água; o cheiro de melancia no mar, que antecipa a presença do tubarão. Coisas que eles descobrem sozinhos, vendo e assuntando o tempo.

O que as pessoas esperam da vida é o que não se ensina . Porque nunca se sabe. Sempre se espera. Mais ainda, o que usamos para racionalizar as nossas atitudes em relação à finitude, são efêmeros. O filho cresce e segue outra vida, a árvore é derrubada, o livro cria bolor, desaparece em nuvens cibernéticas. E nos acostumamos. Kafka escreveu que um leopardo invadiu o templo na hora da cerimônia sagrada. E houve pânico entre os fiéis. Voltou no dia seguinte e de novo houve pânico. Quando voltou no terceiro dia, passou a fazer parte do culto.

Ávidos à vida vivemos neste onipresente claro-escuro em que dormimos e acordamos. Onde acendemos e apagamos. Moléculas de carbono evoluídas das cinzas de supernovas extintas. Somos pedras que pensam. Elaboramos raciocínios para certas e falsas razões. Daí, talvez, a necessidade da criação dos redentores. E um entremeio de saudade que implica lembranças nostálgicas e suaves de coisas distantes ou extintas, de pessoas queridas, vivas ou mortas, que cruzaram o nosso caminho, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las. Em vão.

E chega um momento na vida em que os mortos parecem ser mais numerosos que os vivos e nos recusamos aceitar outros semblantes. Pra cada pessoa que aparece ressuscitamos velhas fisionomias. Colocando a máscara que mais se adapta a cada uma delas que foram para as cidades invisíveis. E por falar nas “cidades invisíveis”, lembrei-me de Italo Calvino. “Pensei: talvez Adelma seja a cidade a que se chega morrendo e na qual cada um reencontra as pessoas que conheceu. É sinal que eu, também, estou morto. Também pensei: é sinal de que o além não é feliz”. Somos, de certa forma, escravos de cada pedaço de prazer, dor e orgulho que ao acaso acontecem. E pareceria que só nos humanizamos ao morrer. Por isso é que parece que nem sempre entregamos nossos corações tão facilmente.

José Delfino Médico, poeta e escritor

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

Ponto de Vista

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