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DE FREE-JAZZ – José Delfino

A expressão é abrangente em tantos sentidos que se torna até um tanto complexo por onde iniciar. A origem etimológica vem de “freedom”, liberdade em inglês. O Aurélio define liberdade como ousadia, como o poder de fazer, deixar de fazer ou escolher, seguindo a própria determinação, ou ainda, a maneira de proceder isenta de constrangimento e das convenções . Por conseguinte, saber o que é Free-jazz implica o entendimento de um estilo musical difícil de ser determinado com objetividade. Donde se conclui ser a expressão um rótulo didático visando facilitar a sua compreensão.
A base deste gênero musical foi proposta e estabelecida por dois negros americanos , Coleman Hawkins (sax tenor) criado no gueto negro de Forth Worth, no Texas, e de formação leiga e Cecil Taylor, pianista de formação erudita crescido no meio burguês de Nova York e diplomado pelo Conservatório de Boston. Ambos com o objetivo de mesclar o jazz com os recursos estilísticos da nova música europeia. A expressão só faz sentido, enfatiza Ekkehard Jost, quando designa liberdade de escolha entre um número quase indeterminado de alternativas e não uma simples revolta contra a tradição. Analisado neste contexto se torna mais fácil para o purista entender e aceitar a multiplicidade de influências. Traduzida pelas fusões da música do terceiro mundo, do erudito do mundo ocidental e da música pop internacional com as formas ortodoxas do jazz e do “Rhythm and Blues“.
Comparações são lembradas com a pintura contemporânea e com a música erudita. O conceito estético e formal do tema – improvisação – final levado a efeito de maneira individual na interpretação do jazz convencional é posto abaixo, predominando agora a improvisação quase total, e frequentemente coletiva, envolvendo todos os músicos inventando o tempo todo. Inicia-se a peça com uma introdução, geralmente polifônica, uma espécie de afinação emocional. Em seguida entram todos juntos tocando ao mesmo tempo sem atrapalhar uns aos outros, dando espaço para cada músico se soltar sozinho. Esta orientação deve ser seguida ao pé da letra durante toda a peça.
Seria mais ou menos como se à música de Stravinsky ou a um concerto grosso barroco, fossem associadas uma ligeira sessão rítmica de jazz convencional. Pelo menos, é o que se percebe a partir das peças de Hawkins. Ele próprio nos dá um norte quando afirma que a música deve ser direta e imediata,  expressando nas mentes e emoções ao invés de ser pano de fundo para emoção. E fulmina: “Vamos ver se nós tocamos a música e não o fundo musical“. Nas entrelinhas, um basta definitivo no uso de acordes preconcebidos para se obter uma harmonia dita “arrumadinha”.
O abandono das normas clássicas, propostas por Hawkins e Taylor e posta em prática por jazzistas das novas gerações, criou uma situação carregada de contradições. O que não poderia ser de outra forma na medida em que pareceria não ser viável fazer-se jazz-livre sem recorrer a oposições. Essas diversificações, às vezes, beiraram o exagero entre nós nos antigos “free- jazz festivals” de São Paulo. Na realidade não um festival de jazz livre, mas um título em duplo sentido encontrado pela patrocinadora do evento, a empresa Souza Cruz, preocupada em promover e incrementar as vendas dos seus cigarros marca “free”. Com efeito, ganharam espaço à época King Sunny Adé, o rei da música jujú, de linha jamaicana; um som rotulado como afro-pop-eletrônico bem distante do que se possa chamar de jazz livre.
Outro exemplo, o sanfoneiro Dominguinhos, que causou espanto ao maestro Valdemar Ernesto que confidenciou a mim, na sua voz lenta e pausada , não ser aquilo que ele entendia como jazz . Dizia ele que a música de Dominguinhos poderia até servir de base para pesquisa, pois explicitava tendências à margem do movimento, mas daí encaixá-la no conceito de jazz livre ia uma distância imensa. Toda a razão ele tinha ao dizer o óbvio, que a música de Dominguinhos é genuinamente nacional e de raízes nordestinas. Os exemplos não paravam por aí. Participaram, também, Philip Glass, da escola minimalista, apresentando a sua música de concerto excessivamente abstrata; a banda Spyro Gira com sua música fusion-progressista e Chick Corea, investindo naquela área dividida entre o Jazz e o Rock. Do jeito que as coisas iam tudo levava a crer que o Jazz corria o risco de entrar no beco sem saída do “free”, mas, entre mortos e feridos, escaparam todos . Melhor seria jogar a culpa no monge Guido D´Arrezzo que um dia cismou de bolar o pentagrama e suas sete notas musicais.
José Delfino – Médico, músico e escritor
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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