DE FILHO PARA PAI – Alberto Rostand Lanverly

DE FILHO PARA PAI –

Já faz quase uma década da nossa despedida, e o acontecido parece haver sido ontem. Lembro o seu olhar vindo em semblante cansado ansiosamente a me mirar, desejando querer dizer que gostaria de ficar sem conseguir, pois havia chegado a sua hora, e você se foi para sempre me deixando triste e desolado.

Hoje, apesar do tempo haver passado com a rapidez da água do mar que escorre por entre os dedos, quando com as mãos tentamos represa-la, a sua imagem continua a brilhar em minha retina, levando-me a entender que saudade é a solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado sim.

Lembro do seu vigor, quando quase em êxtase colocava-me sentado em seus ombros para passearmos na avenida, das suas boas conversas com as quais muito ria enquanto tomávamos cerveja gelada nos bares da cidade. Não posso esquecer da sua alegria a cada degrau da vida que com muita dificuldade e esforço, seguindo o seu exemplo, conseguia subir.

Recordo-me da sua felicidade ao se tornar o amoroso avô das minhas três filhas, verdadeiros anjos de candura, que com suas chegadas me fizeram sentir completo e realizado.

Dou razão ao poeta que um dia escreveu: “O ciclo da vida passa, menos no abismo do coração. Lá dentro, perdura a graça do amor florindo em canção.” Talvez inspirado nesses dizeres, não existe um único dia em meu viver que ao acordar, quase sempre encantado com o nascer do sol, não fortaleça a certeza de que apesar de não mais possuir a meu dispor os momentos vividos, ainda tenho todo o tempo do mundo para respirar e permanecer realizado ao lado dos meus amores.

Meu pai, hoje não o tenho mais fisicamente, porém sempre lembrarei que o senhor me viu dar os primeiros passo, estava lá quando balbuciei minha primeira palavra, passei a conhecer o alfabeto e em um campo de futebol ensaiava os chutes iniciais em uma bola de couro.

Para mim, não existia coisa no mundo que você, painho, não soubesse fazer! Guardo até hoje todo o aprendizado adquirido em nosso convívio, as diversas memórias que juntos criamos, as variadas aventuras por nós praticadas, os filmes assistidos em sua companhia sempre me contando o enredo para facilitar a compreensão.

Por outro lado, eu estive lá no surgimento do seu primeiro fio branco, o qual usando tinta bem preta tentou esconder, permaneci a admirá-lo quando assumiu a sua careca rodeada por cabelos grisalhos. Pai, sou grato por cada momento que usufruímos em família, por cada bronca ou abraço forte que me deu. Antes você cuidava de mim, hoje fico triste por não ter tomado mais conta de você. Muito mais do que pai e filho, fomos e seremos parceiros para todo o sempre.

E hoje, meu querido velho, pensando em você dirijo-me a minhas filhas pedindo que da mesma forma que sempre lhes acompanhei em seus caminhos, em determinado momento, quando as minhas pernas estiverem trôpegas, segurem em minhas mãos para um dia terminar o meu. Um beijo no coração de todos os pais do mundo.

 

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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