DA RAIZ DAS COISAS – José Delfino

DA RAIZ DAS COISAS –
Não que eu seja radical ou quadrado. Não me considero nenhum dos dois. Mas um dia você olha o espelho e vê que está velho. Se descobre, de repente, um macróbio em involução biológica. Na verdade, uma das imagens da evolução da vida. E cai na real. Logo diante dele, onde a gente só nota o que quer.
Ou quando você vê as nuvens passando no céu e subitamente elas começam a assumir outras formas. Difícil dizer se são elas ou as nossas cabeças que estão a realizar a façanha. Ou quando numa manhã você acorda e descobre que não mais gosta tanto de alguém.
Gratuitamente. Mas só na aparência. Pois tudo na montanha russa da vida é previsível. Tudo é cálculo. Tudo é soma. Tudo é subtração. Multiplicar e dividir. A partir do ângulo onde os acontecimentos são analisados.
Não mais um bigode escuro e espesso. Ou o passo antes firme, agora trôpego. Ou a memória a curto prazo começando a ir pra cucuia. Ou a constatação da batalha dos seios femininos a perder terreno contra a gravidade.
Embora o último fenômeno eu achar desprezível. Até hoje, nunca vi uma fêmea nua, em decúbito dorsal, cujas mamas independentemente de tamanho ou formato que não sejam belas. Um claro exemplo da estética a sobrepujar as agruras da anatomia de superfície.
Como olhar na praia num fim de tarde ondas cegas que surdem em surtos. E nos arrecifes se ceifam. E surdas , na espuma, num funeral de espigas mergulham. Oferecendo à luz dos olhos unissonantes sons sem palavras.
Daí uma boa ideia alternativa de encarar a felicidade: olhar de determinado ângulo e ser leve para si mesmo. Ir até a raiz quadrada da questão. Visualizar o radical , o índice , somar as unidades numéricas do radicando e , no caso, dividir por dois.
A radiciação das coisas existe. Uma operação matemática que consiste em encontrar um número que, quando elevado a uma potência, resulta em um outro.
Às vezes, segundo eles, os matemáticos, dependendo da habilidade de cada um, sem haver necessidade de consultar qualquer tabela.
De repente estou a me tornar um velho raiz. Quadrado.
José Delfino – Médico, poeta e músico
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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