Foi esse desfecho que levou pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, em Iași, na Romênia, a descrever o caso como de endometriose cerebral presumida, isto é, a possível presença no cérebro de tecido semelhante ao que reveste o útero. O relato foi publicado em 11 de setembro no Journal of Clinical Medicine.
A palavra presumida acompanha o diagnóstico porque não houve biópsia: os autores consideraram arriscado retirar material do hipocampo, e ninguém examinou o tecido da lesão no laboratório.
A mudança nas imagens
O exame de 2019 mostrou uma área mais clara, espalhada pelo hipocampo direito, com as regiões vizinhas do cérebro aparentemente inchadas. Os radiologistas consideraram uma má-formação do córtex cerebral, uma infecção ou um tumor.
Os demais exames não apontaram uma causa: o eletroencefalograma, que registra a atividade elétrica do cérebro, não mostrou descargas típicas de epilepsia, embora tenha sido feito fora das crises, e os testes de memória e raciocínio foram normais. Durante cerca de um ano e meio, a paciente usou dois medicamentos antiepilépticos, sozinhos ou combinados, e as crises persistiram.
Uma nova ressonância, em 2020, mostrou na parte de trás do hipocampo uma área em formato de pequeno nódulo, de cerca de um centímetro, que absorvia o contraste, substância injetada na veia para destacar alterações no tecido, e um ponto escuro que podia ser cálcio acumulado ou ferro deixado por sangramento antigo.
Os radiologistas apostaram em tumor, mas o aspecto sugeria presença de sangue, e isso colocou a endometriose entre as hipóteses, já que o sangramento é uma característica da doença. Um exame que analisa a composição química do tecido não encontrou sinais claros de tumor, mas também não resolveu a dúvida.
O tratamento com hormônios começou em 2021, quando a relação das crises com a menstruação levantou a suspeita de endometriose no cérebro. Por cerca de quatro anos, a paciente tomou dois hormônios sintéticos semelhantes à progesterona, o dienogeste e o desogestrel, usados no tratamento da endometriose.
Os antiepilépticos foram suspensos depois de três meses, e as crises e os demais sintomas neurológicos desapareceram por completo, segundo os autores.
A ressonância de março de 2026 acompanhou a melhora: a lesão já não aparecia.
Hormônios que excitam e hormônios que protegem
O padrão da paciente tem nome: epilepsia catamenial, quando as crises se concentram em determinados dias do ciclo menstrual. Segundo a literatura reunida pelos autores, ela atinge de um terço à metade das mulheres em idade fértil que têm epilepsia.
A explicação está na ação oposta dos hormônios do ciclo sobre os neurônios. O estrogênio deixa as células nervosas mais excitáveis; a progesterona e seus derivados funcionam como um freio, reforçando um mensageiro químico do cérebro que acalma a atividade neuronal.
No padrão perimenstrual, o da paciente, as crises se concentram entre cerca de três dias antes e três dias depois do início da menstruação, justamente quando a progesterona despenca e o freio perde força.
Esse vínculo com o ciclo, porém, pode existir sem endometriose. Gustavo Leme, ginecologista, cirurgião e especialista em neuropelveologia, área voltada aos nervos da pelve, lembra que a oscilação hormonal, por si só, pode desencadear convulsões em algumas mulheres. O diário mostra a ligação com o ciclo, mas não indica o que a provoca.
Como um tecido do útero poderia chegar ao cérebro
A endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste o interior do útero, fora da cavidade uterina.
Marcos Tcherniakovsky, ginecologista, obstetra e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose, explica que, na menstruação, parte desse tecido segue pelas tubas uterinas e cai na cavidade abdominal, onde, em algumas mulheres, se implanta, em locais como o intestino e o ovário; na maioria, é absorvido.
Ainda não se sabe o que diferencia umas das outras. Hoje, afirma, a doença deixou de ser vista como exclusivamente pélvica e passou a ser entendida como crônica, inflamatória e sistêmica.
Ninguém sabe ao certo como o tecido chegaria ao cérebro. Entre as hipóteses citadas por Tcherniakovsky estão a transformação de células de outro órgão em tecido parecido com o endométrio, ideia defendida desde o início do século XX, e a viagem de células endometriais pelo sangue ou pelos vasos linfáticos, de modo parecido com a metástase de um câncer, embora a doença seja benigna.
Leme aponta que, em locais muito incomuns, a explicação costuma ser embrionária: o tecido já estaria ali desde a formação do embrião, fora do lugar, e só passaria a reagir aos hormônios quando a menstruação começa.
Se estivesse no hipocampo, segundo ele, agiria como em qualquer outro órgão: cresceria, inflamaria e sangraria a cada ciclo, o que poderia provocar convulsões. Os autores ressalvam que, no cérebro, todas essas hipóteses seguem em grande parte especulativas.
A doença nessa localização é raríssima. Os autores encontraram apenas oito casos publicados, o mais antigo de 1987, e nenhum com lesão claramente descrita no hipocampo, até onde sabem.
Pela tabela do estudo, cinco foram confirmados em tecido, por cirurgia ou biópsia; nos demais, o diagnóstico foi presumido ou o método não é detalhado. A paciente também não tinha endometriose conhecida na pelve e, para Tcherniakovsky, a suspeita só surgiu porque ela relatou o padrão cíclico das crises. Para os autores, a ausência de sintomas pélvicos não descarta a doença no cérebro.
Hipótese ainda depende de prova
O argumento mais forte dos autores é a resposta ao tratamento hormonal, e é também o ponto que pede mais cautela. Eles sustentam o diagnóstico em pistas que, sozinhas, não provam nada: crises ligadas à menstruação, lesão que mudou nos exames, falta de sinais claros de tumor, melhora com os hormônios e sumiço da alteração na ressonância.
Como mexer no hipocampo era arriscado, recorreu-se a um teste com hormônios, conduta que Tcherniakovsky descreve como a indicada para qualquer endometriose. Ele vê a melhora como compatível com a doença, mas reconhece que falta o exame do tecido.
Leme completa que a melhora é um indício, e não uma prova. O ponto escuro visto em 2020 pode ser ferro deixado por um sangramento antigo, que surge depois de qualquer hemorragia, e a melhora também seria esperada se as crises fossem só efeito da oscilação hormonal.
Só a presença de tecido do endométrio em uma amostra retirada confirma a doença. Os autores chegam à mesma conclusão: como o relato descreve uma única paciente e não houve confirmação em tecido, não é possível provar que o tratamento foi a causa da melhora. Não seria, porém, o primeiro caso de endometriose no cérebro, já que a literatura registra outros.
Os autores listam outras dúvidas. As próprias crises podem causar alterações passageiras na ressonância, e a epilepsia da paciente começou antes do exame. Um tumor de crescimento lento e uma inflamação provocada pelo sistema de defesa do organismo, não investigada na época, também não podem ser descartados.
O desfecho traz mais um detalhe. O tratamento foi interrompido em setembro de 2025, depois da última menstruação relatada, e as crises não voltaram. Como a ressonância de 2026 foi feita sem hormônios, e os autores observam que focos de endometriose no cérebro podem virar cicatriz depois da menopausa, o exame é compatível tanto com a lesão ter desaparecido quanto com uma cicatriz que ficou.
Tcherniakovsky pondera que o relato não deve dar a impressão de que o problema seja comum: é uma condição raríssima, e o caso se resume a uma paciente que melhorou com o tratamento habitual da endometriose, o bloqueio do ciclo menstrual.
Sem o exame do tecido, a origem das crises dessa mulher continua em aberto: pode ter sido um foco de endometriose no hipocampo, calado pelos hormônios, ou apenas a oscilação do ciclo, que o mesmo tratamento também interromperia.
O que o relato deixa é o registro de sete anos de acompanhamento e um ponto de partida para os médicos: quando as convulsões seguem o calendário da menstruação, vale investigar o ciclo e, em alguns casos, tentar os hormônios antes de pensar em cirurgia.