Uma mulher que queria ser médica, se encontrou como policial civil e não tinha planos de ser mãe acabou vendo a própria história se transformar em inspiração para uma novela da TV Globo. Nascida em Natal, Flaviana Bezerra, 51 anos, teve a vida transformada em 2018, quando foi chamada para atender uma ocorrência de homicídio em Parnamirim, na Grande Natal.
O homem assassinado era avô de um menino e pai de cinco, que já haviam perdido a mãe em 2015. Flaviana chegou ao local como policial, mas saiu daquela história com um vínculo que mudaria completamente vida dela. Inicialmente, Flaviana acolheu o grupo e com o tempo, tornou-se mãe de cinco delas.
A história foi contada pelo g1 e pelo Fantástico em 2020. Agora, ganhou um novo capítulo: Flaviana inspirou os autores de “Por Você”, novela das 7 que estreou no último dia 17 de agosto e tem como protagonista Bela, uma médica obstetra interpretada por Sheron Menezes. Na ficção, a personagem passa a cuidar dos quatro filhos da melhor amiga depois da morte dela.
Quando soube que a história havia chamado a atenção dos autores de Por Você, Flaviana diz que nem conseguiu assimilar completamente. “Com tanta história bonita sobre adoção que existe por aí, e a minha veio inspirar”, contou.
A inspiração ganhou um significado especial porque a história que chegou à televisão não é apenas sobre uma mulher que se tornou mãe de forma inesperada. Para Flaviana, ela também pode ajudar a colocar a adoção tardia em evidência.
“Não sei se foi coincidência, mas passei a ver mais histórias de pessoas interessadas pela adoção tardia. Se teve alguma influência, eu vou ficar muito feliz. Tomara que alcance mais pessoas”, diz.
Antes de se tornar policial e, anos depois, mãe, Flaviana tinha outro projeto de vida. Nascida e criada em Natal, ela trabalhava e estudava e sonhava em cursar Medicina. Como vinha de uma família de origem humilde, não tinha condições de simplesmente parar de trabalhar para estudar.
No início dos anos 2000, ela foi visitar uma prima no Hospital Onofre Lopes, em Natal, e a encontrou em estado de choque. A prima havia sido assediada por um homem. Flaviana saiu atrás dele, conseguiu contê-lo e chamou a polícia.
“Eu já fazia judô na época, nem pensei em nada, corri e voei em cima dele quando vi a minha prima naquele estado. Fiquei segurando ele até a polícia chegar”, contou.
Na delegacia, enquanto acompanhava o caso, os futuros colegas de profissão brincaram e incentivaram Flaviana a fazer o concurso da Polícia Civil. Seria uma forma de trabalhar e juntar dinheiro para estudar para o vestibular de medicina.
Ela fez um curso preparatório em 20 dias, passou no concurso, mas só foi convocada em 2006. “E ja são 20 anos como policial, mas nesse período eu eu me apaixonei. Que fique bem claro, eu amo minha profissão”, afirmou.
Ao longo da carreira, trabalhou em atividades de campo, inteligência, operações e capturas, além da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Flaviana também atuou por três anos no Ministério da Justiça.
Com o passar dos anos, os filhos cresceram e seguiram seus próprios caminhos. Alguns se casaram, outros mudaram de cidade e construíram suas vidas de forma independente, “como é natural em qualquer família”, diz a agente.
A rotina e a convivência diária mudaram, mas, segundo Flaviana, o carinho, o contato e o vínculo afetivo permanecem. Ela continua sendo uma referência materna para eles e diz estar por perto sempre que precisam.
Flaviana conta que nunca teve o sonho tradicional de casar e ter filhos. A maternidade surgiu de uma situação que ela não havia planejado e que, segundo ela, não esperou pela formalização para existir. “A gente já se adotou antes de tudo, nós nos adotamos”.
Flaviana e os cinco filhos viveram juntos na mesma casa entre 2020 e 2022, no período mais crítico da pandemia de Covid-19.
Olhando em perspectiva, Flaviana reconhece que a trajetória como mãe também foi marcada por dificuldades e frustrações, especialmente ao perceber que os filhos fariam escolhas diferentes daquelas que ela imaginava para eles.
Ela conta que aprendeu que ser mãe também significa respeitar a autonomia dos filhos, mesmo quando não concorda com os caminhos escolhidos.
“Eu deixei eles fazerem as escolhas deles, eles permanecerem juntos, eles serem felizes da maneira que eles escolheram, mas eu estou sempre por perto”, diz.
Fonte: G1RN
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