COISAS QUE NÃO SE COBRAM – Flávia Arruda

COISAS QUE NÃO SE COBRAM –

 Ao longo da nossa existência, nutrimos desejos e vontades, anseios e expectativas que nem sempre são alcançados. Caminhamos por estradas desconhecidas com terrenos íngremes, as vezes planos, outras vezes instáveis.

Montanhas sem atalhos, trilhas a desbravar os instintos de sobrevivência, em selvas habitadas por animais selvagens e traiçoeiros, espreitando-nos, prontos para o bote. Caminhos pelos quais enveredamos no afã de conquistas almejadas.

Não há como não nos sentirmos importantes a um simples elogio, ou quando somos lembrados por pequenas coisas, nos pequenos gestos despretensiosos. Desejamos ser importantes, respeitados e amados. Queremos fatias de destaque nas vidas que nos rodeiam.

Ansiamos estar presentes nas lembranças daqueles que consideramos importantes. Prestigiamos a reciprocidade do que sentimos. Difícil é fazer-se existir, superando as decepções e frustrações dos retornos bruscos do caminhar.

Sermos valorizados e reconhecidos, ou não, pelo que somos e pelo que realizamos, faz com que estejamos numa constante busca evolutiva de quem somos, o que queremos e o que estamos a fazer a cada passo da caminhada.

Ligando-nos intimamente com anseios e desejos preestabelecidos em tempos pretéritos. Rever valores, ideias e conceitos faz parte do amadurecimento e discernimento que alicerçam as estradas futuras.

Importa-nos saber que expectativas nascem das necessidades de um ser, e nem sempre condizem com os anseios e as retribuições do outro. Sermos importantes para o outro não depende de nós.

Existem coisas que não se cobram, somente se recebem, por serem gratuitas e entregues com espontaneidade, tais como: o cuidado, o carinho, o amor e a atenção. Amor não se pede, sente-se; atenção não se cobra, recebe-se; importância não se pleiteia, percebe-se; e, carinho não se reclama, tem-se.

O que importa, afinal? Importantes são as edificações do ser a cada derrocada, a amplitude do pensar ao interrogar, a satisfação das conquistas que obtivemos ao longo da jornada, as considerações externadas que engrandeceram e acalmaram a alma, o respeito e a valorização do que somos.

O que importa mesmo é saber receber, mesmo sem ter o que retribuir.

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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