COISAS QUE EU VI, OUVI OU VIVI: O HOSPITAL DAS CLÍNICAS E AS ENCOSTAS DA AV. GETÚLIO VARGAS

COISAS QUE EU VI, OUVI OU VIVI: O HOSPITAL DAS CLÍNICAS E AS ENCOSTAS DA AV. GETÚLIO VARGAS –

Quando Secretário de Planejamento da Prefeitura de Natal, dentre tantos problemas que tive de enfrentar, um deles teve uma característica especial.

A ganância urbana de origem pública.

Sendo o normal enfrentar as investidas do setor privado, sempre procurando se beneficiar do setor público, para satisfazer os seus intuitos, dessa vez, me deparei com a UFRN querendo ocupar parte da “Encosta da Getúlio Vargas”, com a justificativa da necessidade de ampliar o Hospital das Clínicas, hoje Hospital Onofre Lopes.

Resumia-se a pretensão, no avanço do anexo ao hospital para ocupar 33 metros à frente da Avenida Nilo Peçanha.

Isso representaria a criação de uma barreira física, que impediria a visão da praia àqueles que chegassem à “balaustrada da Getúlio Vargas”, o que se entende como um crime contra a servidão de paisagem.

Diante das pressões da Universidade e dos setores ligados aos “interesse médicos”, eu já estava me sentindo impotente, até que descobri que os 33 metros não eram tão importantes assim, para o projeto da UFRN.

Comecei a desconfiar disso, quando um dos pró-reitores, no calor de uma das sessões de discussão, disse: se não fizermos o prédio em frente da Avenida Nilo Peçanha, onde vamos colocar a placa do novo hospital?

Pedi ao pessoal da área de engenharia e arquitetura da Secretaria, que fizesse um exame do projeto, em função da disponibilidade de área física, e eles concluíram que havia terreno, mais do que suficiente, para a construção pretendida, sem a necessidade de avançar na frente da avenida.

Mesmo com as evidências, as pressões continuavam. Então me lembrei de apelar para o Governador Tarcísio Maia, médico e amigo do tal pró-reitor da placa.

Sabendo que Dr. Tarcísio estaria em Brasília para contatos administrativos, me mandei para lá, e, logo cedo cheguei no escritório do Rio Grande do Norte, onde ele começava as suas atividades.

Ao chegar, Dr. Tarcísio pergunta: o que faz aqui Toinho?

Eu disse: preciso da ajuda do Senhor.

Abri as plantas no seu birô e mostrei as minhas razões.

Ele ligou para o Gabinete e mandou marcar uma audiência sobre o assunto com a UFRN, com a nossa participação.

Quando da reunião, na presença do Reitor e Pró-Reitores, o arquiteto responsável pela firma contratada fez uma exposição tão convincente, que até eu já estava ficando em dúvida.

Ele era daqueles que “vendem geladeira pra esquimó”.

Chegando a minha vez de falar, ao invés de contestar os seus argumentos, me veio a ideia de perguntar, porque ele, uma vez que dispunha de terreno para a construção, não transladava o projeto em 33metros, evitando ocupar a frente da Avenida Nilo Peçanha?

Eu perguntava e ele procurava fugir da pergunta.

Eu insistia com o mesmo tema.

Depois de umas quatro ou cinco vezes, sem que ele me atendesse, Tarcísio Maia falou: tá bom.

Quando esse baixinho lhe questiona de uma forma tão simples e você não consegue lhe responder, sou obrigado a dar razão a ele.

Dirigindo-se ao Reitor disse: Domingos o assunto está encerrado. Mande que o arquiteto faça o projeto transladando esses 33 metros, para não comprometer uma servidão de paisagem tão importante para a nossa cidade.

Depois de terminado o nosso período na Prefeitura, ao passar pelas encostas da avenida, nos tais 33 metros, eu tinha o desprazer de me deparar com a construção de uns barracos, que serviam de pontos de comércio e impediam contemplar a tão bonita paisagem.

Não lembro quando, mas há alguns anos, tive o prazer de ver que a Prefeitura derrubou os “pontos de comércio”, para construção de um mirante, mas, até hoje, o projeto não foi realizado.

 

Antonio José Ferreira de Melo – Economista – antoniojfm@gmail.com

Ponto de Vista

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