CAIXAS PRETAS –

Na medicina, a falta de um diagnóstico prévio torna impossível o tratamento de doença.

O mesmo acontece, em relação à eficácia de mudanças econômicas, sociais e políticas.

Com as eleições de 2018 a menos de quatro meses, o país aproxima-se do “olho do furacão”.

As ondas do radicalismo político batem umas nas outras e apontam a necessidade de diagnóstico da crise nacional, real, verdadeiro, sem meias palavras.

A hora é agora e começa pela abertura de “caixas pretas” “escondidas” e “protegidas” pelo Estado brasileiro, que precisam ser “escancaradas”.

Vejamos alguns exemplos, para identificar quanto elas custam, quem se beneficia, se atingem os objetivos, se há fiscalização e se os resultados finais são satisfatórios.

A primeira delas é o alardeio do “propagado” déficit da previdência, que leva servidores públicos, aposentados, pensionistas e assalariados à guilhotina, “eternos bois de piranha”, acusados de parasitas, embora todos eles tenham contribuído ao longo da vida para a previdência, enquanto o governo passa “calote histórico”, por não recolher a sua parte, além da desenfreada sonegação.

O déficit existe, mas não na proporção propagada.

Uma hermética “caixa preta” omite, por exemplo, que 30% da receita previdenciária é “garfada”, desde 1995, através da DRU (Desvinculação das receitas da União), permitindo ao executivo usar o dinheiro da previdência como queira e pagar até juros da dívida pública.

Outra “caixa preta” foi recentemente apontada em relatório do TCU.

Trata-se da renuncia de receita, através de “benefícios tributários, financeiros e creditícios” (incentivos, taxas de juros inferiores ao custo de captação, isenções, desoneração de folha de pagamento, etc), que somente em 2017 chegaram a R$ 354,7 bilhões (duas vezes o alegado déficit da previdência), correspondendo a 5,4% do PIB e 30,7% da receita primária líquida.

Nota-se que o Governo federal, de um lado deixa de arrecadar e de outro gasta com incentivos quase um terço de sua arrecadação líquida.

O próprio TCU concluiu, que “se voltássemos ao patamar de “renúncias” de 2003 a 2008, o valor cobriria, com sobra, o déficit primário do país (dinheiro gasto que excede a arrecadação)”, que atingiu R$ 154 bi, em 2016.  O mais grave é que, segundo o ministro Bruno Dantas, concedem-se “benefícios tributários, financeiros e creditícios” (85% não têm prazo de validade para acabar), indiscriminadamente, sem fiscalização, qualquer acompanhamento, sem medição dos efeitos, sem estudos que mostrem benefícios sociais, ou econômicos.

O governo abre mão de receitas, agrava o déficit da previdência, em nome de estimular o “mercado” e o desemprego aumenta.

Observe-se, por oportuno, nada existir contra a concessão de incentivos, numa economia livre de mercado.

O que não se justifica é a má aplicação, por tratar-se de dinheiro público (tributo), que deveria estar sujeito à rigorosa fiscalização.

Outra “caixa preta”, objeto de texto recente da “Folha”, foi a extinção do imposto sindical e simultaneamente a manutenção da “contribuição compulsória” (natureza jurídica de tributo para-fiscal, segundo o STF), cuja arrecadação pela União em 2017 atingiu R$ 20 bilhões (quatro vezes mais que o imposto sindical), utilizados em formação de mão de obra e repasses para as confederações, federações e sindicatos empresariais.

No próprio meio empresarial há severas críticas. Horácio Lafer Piva, ex-presidente da FIESP, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski, ambos do IEDI (Instituto de Estudos para o desenvolvimento Industrial) – instituição privada séria, isenta de partidarismos e corporativismo – publicaram artigo na Folha, propondo mudanças na representação patronal.

Para os três empresários, confederações, federações estaduais e sindicatos deveriam ser sustentados, com contribuições voluntárias e não tributo arrecadado pela União, aplicado em instituição privada.

Quanto ao Sistema S, a sugestão seria manter a coerência do discurso e privatizá-lo, reduzindo a carga tributária.

As “caixas pretas” que aglutinam interesses diversos, espalhadas no país, não ficam a dever aos escândalos atribuídos à classe política.

O momento nacional impõe também desnudá-las para contrabalançar o monologo entedioso, que diante da falta de recursos, sempre resvala em costumeiros cortes na área social, atingindo aqueles que lutam heroicamente para sobreviver.

Até para preservar os valores da democracia e das liberdades, esse quadro terá que mudar.

 

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal nl@neylopes.com.br www.blogdoneylopes.com.br
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

  DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,2280 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3990 EURO: R$ 6,0200 LIBRA: R$ 6,9370…

13 horas ago

Brasil reduz em 72% mortalidade de crianças menores de cinco anos desde 1990, aponta relatório da ONU

Em 1990, a cada mil crianças nascidas no Brasil, 25 morriam antes de completar 28 dias de…

13 horas ago

Quanto tempo você precisa trabalhar para comprar comida em Natal?

Você já parou para pensar quantas horas por mês é preciso trabalhar para comprar comida…

13 horas ago

EUA usam bomba de penetração contra posições do Irã no Estreito de Ormuz, diz Comando Central

O Comando Central dos EUA disse ter utilizado nessa terça-feira (17) bombas de penetração profunda…

13 horas ago

Supremo condena deputados do PL por corrupção passiva

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou nessa terça-feira (17) dois deputados federais…

13 horas ago

PONTO DE VISTA ESPORTE – Leila de Melo

1- Hoje é dia de Clássico-Rei! A venda de ingressos para o primeiro jogo da…

14 horas ago

This website uses cookies.