BRINCADEIRA DE CRIANÇA –

Não sei se com as demais pessoas acontece o mesmo que a mim. Sinto, que a medida que envelheço as lembranças da infância estão mais presentes, como que clamando por socorro para não serem largadas nas gavetas do esquecimento.

Basta debruçar-me na avaliação dos balancetes da minha existência para que flashes de boas, tristes ou hilárias recordações se insinuem no debate. Existe um provérbio hindu que garante: A velhice começa quando a memória é mais forte que a esperança. Daí eu desconfiar que a ancianidade já esteja nos meus calcanhares.

Um pensador alemão – acho que foi Nietzsche -, falou que o homem atinge a maturidade quanto recupera a serenidade com a qual brincava quando criança. Pois bem, o assunto que abordo agora bisbilhota brincadeiras do meu tempo de criança.

Na minha querida cidade de Natal, na abrangência dos bairros Tirol e Petrópolis, existe uma sequência de dez ruas paralelas com nomes de rios do Estado. Essas ruas se entrelaçam, perpendicularmente, com avenidas que homenageiam os sete primeiros presidentes da nossa República.

As ruas em questão são as Ceará-Mirim, Maxaranguape, Apodi, Jundiaí, Açu, Mossoró, Mipibu, Trairi, Potengi e Seridó. Eu passei a minha infância morando na Rua Mossoró, e o pirralho do imbróglio aqui tratado, na Rua Açu. Tínhamos, na época, 10 ou 12 anos de idade.

A brincadeira da moda, era jogar bolas de gude. O jogo em si consiste em demarcar no piso um pequeno triângulo, pôr as bolas de vidro em disputa no seu interior, e tentar retirá-las de dentro do espaço atirando contra elas outra bola de uma distância preestabelecida. Ganha o jogo quem findar com o maior número de bolas.

Eis-nos na disputa, eu e Geraldo. Não sei dizer em que fase do jogo nem por qual motivo deu-se o mal-entendido. A verdade é que ficamos intrigados. Certamente, por uma causa banal em se tratando de duas crianças.

O normal em desavença dessa natureza, era que os cismados retornassem às boas, horas depois ou, no máximo, dia seguinte. A verdade é que mudei de bairro e os desencontros do cotidiano nos mantiveram afastados por longo tempo.

Os anos passaram e eis-nos novamente cara a cara em preparação para o enfrentamento da vida universitária. Galgamos juntos o mesmo vestibular, em 1965. Durante cinco anos integramos a mesma turma e, em 1969, nos formamos em Engenharia Civil pela UFRN, sem nos falarmos.

Durante o convívio universitário nunca nos desrespeitamos nem nos agredimos um ao outro. Simplesmente não nos falávamos e ponto final. Nenhum colega de turma, durante o transcorrer do curso, desconfiou de nossa indiferença.
Já adultos, casados e com filhos da mesma faixa de idade que nós, quando do rapapé, por coincidência calhamos de veranear numa mesma praia. Em caminhada matinal na orla de Cotovelo, eu e um amigo comum a nós ambos, cruzamos com Geraldo. O amigo parou e falou com ele, enquanto eu permaneci calado.

Desconfiado, o amigo me interpelou acerca do descaso para com um colega engenheiro. Abri-me, e lhe contei a história da trapalhada. Ele deu meia volta e, sem qualquer cerimônia, me apresentou a Geraldo. Apertamo-nos as mãos e se acabou a imbecilidade que vivenciamos por falta de humildade e de iniciativa, por tantos anos.
Fomos dois cabeças-duras, porém, conseguimos sanar a tempo o dolo causado por uma brincadeira de criança, porque a vida não avisa quando vai terminar.

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro e Escritor

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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