BIG DATA DIGITAL – Heraldo Palmeira

BIG DATA DIGITAL –

Sou um homem urbano e, como tal, padeço das vaidades urbanas. Vivo numa das maiores cidades do mundo, onde tudo tem – do melhor e do pior. Ambiente mais do que preparado para a “tecnologização” do mundo e da vida, como se isso fosse normal e inevitável.

Passei a vida inteira aprendendo a desenvolver o afeto e, exatamente quando a velhice já namora comigo, estou sendo obrigado a conviver com a desafeição coletiva. Afinal, gente moderna, tecnológica, autossuficiente pensa que não precisa das antiguidades humanas. E vai agindo com essa falsa modernidade individualista.

Vamos vivendo assim, sendo treinados para acreditar nessas verdades absolutas, nos mantras que nos chegam de pedaços mais desenvolvidos do mundo como se fossem padrões. O Vale do Silício foi transformado no novo Éden que gera milionários do nada. Uma Terra Santa onde poucos podem viver, mas de onde brotam os novos mandamentos que deverão guiar a humanidade pelos próximos segundos. Índia e China se moldam para ser os segundos reinos dessa crendice binária, sonhando em substituir o reino original como centro dessa fé opulenta de dinheiro e vazia de sentimentos, cuja liturgia vem pré-programada em cliques e fases que nenhum fiel domina à excelência.

Algo como se as Tábuas de Moisés fossem decompostas em bilhões de telas azuladas espalhadas pela terra prometida aos devotos digitais, que acreditam piamente que todo mundo tem acesso a todas as informações disponíveis. Um pensamento distorcido que se forma no isolamento de quartos e mundos resumidos a teclados, monitores, tabletes, smartphones e redes sociais, onde a “oração da mobilidade” soa como um Pai-nosso desfigurado.

Nestes tempos tecnológicos e de comunicação digital, chegamos ao ponto de alguns bares e restaurantes oferecerem desconto na conta, se os grupos reunidos às mesas desligarem suas bugigangas eletrônicas.

Há quem alegue que é apenas um truque para os templos da boemia faturarem mais, pois os autômatos digitais ficam tão entretidos com suas maquininhas que esquecem de conversar, rir, distribuir afetos e consumir.

De repente, gente menos disposta a seguir como rebanho ou entrar nessas discussões filosóficas de botequim cunhou um novo ditado popular: “A melhor rede social ainda é uma mesa de amigos”.

Comece a pensar se não vale a pena apostar menos no desconto puro e simples por desligar uma quinquilharia digital num boteco, e mais nos dividendos das boas relações fraternas que permitem estar ao lado de pessoas que valem a pena. Afinal, o tempo voa, a vida é curta e a gente pode não ter a próxima oportunidade de estar numa boa roda de amigos sendo apenas gente.

Dia destes, li por aí que “deixar apenas o tempo passar é um risco, pois ele não usa anestesia”. Portanto, faça alguma coisa comum de grande valor, não se acanhe de ser chamado de antiquado, de se emocionar à toa, de dizer palavras doces.

Tenha certeza de que muito mais gente do que você imagina não tem qualquer interesse naquelas fotos ridículas de pratos e rótulos de bebidas postos sobre a mesa, ainda intactos para as imagens que tentam vender uma vida perfeita que ninguém alcança. Aproveite seu tempo enquanto é tempo.

Veja nestes vídeos (clique nos links abaixo) que ainda há pessoas que não sabem direito quem é Papai Noel, mas nem por isso são infelizes ou menores, e se encantam maravilhosamente quando entram no clima. Pessoas tão grandes que, mesmo sem ter quase nada, dividem com alegria o essencial que recebem de forma inesperada. Sim são mensagens comerciais, mas estão repletas de pitadas do melhor que existe na alma humana:

Coca-Cola na comunidade Suspiro, em Betânia do Piauí, Piauí: https://drive.google.com/file/d/0B5L1GVs4RDr4MkhOUlozSTJTWUE/view

Adidas e Fundação Benfica em Porto Mosquito, Cabo Verde: https://www.youtube.com/watch?v=tL1CFWN3lNc

Lembre-se: “O Natal é uma atitude”. Tome a sua, como se fosse seu presente.

Feliz Natal para todos nós. E que essas cenas nos ajudem a acreditar nos nossos melhores sonhos para o ano novo. Afinal, mesmo que as cenas do mundo nos informem que ele sempre será desigual, a gente sabe que tudo pode ser muito melhor. E será!

 

Heraldo Palmeira – Produtor Cultural

As opiniões emitidas são de responsabilidade dos colaboradores
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