BEM-VINDA VELHICE –

A maior dádiva da juventude é não nos deixar focalizar a morte como inevitável nem a velhice como consequência do avançar dos anos. Enquanto jovens sonhamos. Sonhamos grande sem espaço nem para a velhice nem para a morte. A velhice na concepção do jovem descortina-se numa dimensão distinta e distante do seu mundo.

Acontece que em determinado momento da existência, a velhice se acomoda no nosso cotidiano e faz valer sua presença marcante. As primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam. A gente continua se vendo como sempre. Compete aos outros perceberem a diferença. Depois de alertado sobre sua presença, aí sim, vamos aos poucos descobrindo suas manifestações.

Quer pela evolução do desgaste físico, pela desmotivação por tarefas antes agradáveis de ser executadas; pela falta de abundância das madeixas capilares ou pela ampliação da circunferência abdominal, teimando em fugir do controle do padrão estético cultivado pela vaidade.

Ouvi certa feita de um estimado professor o seguinte desabafo: Amigo, a velhice é uma merda! Nunca esquecerei aquela expressão de revolta diante de sua impotência para barrar a evidente decadência da saúde e pela ineficácia de suas ações sobre o domínio do próprio corpo. Na época a afirmativa me soou sem propósito embora tenha permanecido na lembrança a maneira enfática como foi colocada.

Hoje tenho perfeita consciência da dimensão da revolta do professor, da mesma forma que enfrento o avançar dos anos com procedimento e interpretação próprios. Adaptar-se à velhice é um exercício de inteligência. Uma manifestação espontânea de conviver com o porvir da existência.

Envelhecer incomoda? Não, se aceitarmos a velhice como nossa maior conquista. O prêmio pela sobrevivência após tantas adversidades da vida. Nada de repisar as consequências da inatividade na velhice. Jamais me imaginei sentado num banco de praça jogando baralho, dama, xadrez ou dominó esperando a morte chegar.

O segredo é obrigar o cérebro a pensar e movimentar o corpo. Explorar talentos naturais. Exercitar aquela habilidade há tempo esquecida ou relegada a plano secundário por exclusiva falta de tempo. Qualquer atividade se torna válida desde que traga prazer.

Papeando com um poeta e escritor, ativo e saudável já beirando os 90 anos, dele ouvi o desabafo que interpreto aqui da forma seguinte: Pretendo viver até os 104 anos. Trabalharei até os 100. Os quatro anos restantes dedicarei para apreciar a vida! Existe grau de otimismo superior a esse?

Tomo como exemplo a declaração de Clint Eastwood Jr, 95 anos, ator e diretor norte-americano, quando questionado quanto a sua vitalidade, falou: Ao acordar, sempre assumo o propósito de não deixar a velhice entrar na minha vida. Se nos dermos conta que a velhice é apenas um outro patamar da existência a ser vencido, atravessaremos essa última etapa da vida conscientes e conformados com o amanhã.

Quanto ao mais, meu caro leitor, o ideal é poder dormir e acordar todos os dias tendo a certeza de que, em qualquer instante ou em qualquer estágio em que nos encontremos, o homem é a manifestação maior da natureza e a vida seu momento mais sublime.

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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