ÀS VEZES, PRECISAMOS APENAS RASPAR UMA PANELA DE BRIGADEIRO – Bárbara Seabra

ÀS VEZES, PRECISAMOS APENAS RASPAR UMA PANELA DE BRIGADEIRO – 

Passo diante do cinema – o mesmo que nos recebia todas as semanas, carregados de sacos de pipocas, refrigerante (para ele), água (para mim), balas de maçã verde, M&M, chocolates, um moletom (nunca entro numa sala de cinema sem isto!). O mesmo cinema que conhecemos todas as salas, sabemos qual o local ideal para sentarmos sem perdermos a atenção em nenhum momento. Aquele que nos deixava incomodados com as filas longas para comprar ingressos ou pegar as balas na bomboniere. Passo diante de um lugar vazio…

Não vejo filas, gente se enroscando diante da bilheteria, nada disso. Não vejo o senhorzinho que nós nos habituamos a encontrar todas as semanas com um pacote da livraria em uma de suas mãos. Nunca soubemos o nome dele, mas sempre que estávamos próximos na fila ele falava que ia assistir a este ou aquele filme, porque o produtor era “assim”, a história já foi filmada no ano de “1900…” e assim por diante. Gostávamos de vê-lo e ter um minutinho de prosa com aquele desconhecido. Por onde ele deve estar? Substituiu o cinema pelo Netflix? Está bem, diante da pandemia? Fiquei preocupada…

Não consigo me ver indo ao cinema agora. Esparramando-me na cadeira acolchoada enquanto sinto o seu frio tocar minha pele, o que me faz procurar o casaquinho preto na bolsa cheia de miudezas. Não consigo me imaginar… simplesmente isso. Então, ao voltar para casa, pego o controle remoto e saio à procura de filmes que me surpreendam, me arranquem suspiros, risadas, me façam esquecer a loucura que tentamos fazer de conta não existir.
Sim, percebo que estamos “fazendo de conta” que tudo passou e estamos vivendo normalmente. O “novo normal” – intitulado assim sabe-se lá Deus por quem. Normal? Isto é mentira. Andamos sobressaltados, desconfiados. Quais os meios de imprensa que têm nos dito a verdade? Quais os números que podemos confiar? Quais os artigos científicos que são, realmente, coerentes?

Por fim, decido parar de pensar um pouco sobre isso. Faço um balde de pipocas. Olho insegura para a dispensa, mas decido fazer brigadeiro. Assim, vou munida de guloseimas para o quarto. Escolho um filme que já assisti. Apago a luz. Ligo o ar-condicionado. Separo uma manta. Desligo o celular por um curto tempo. Tempo suficiente para eu me desligar. Esquecer as tristezas. As incertezas. As pendências que a correria me imprimiu.

Como já esperava, chorei. Escolhi o filme intencionalmente com este fim. Não, não estou triste. Só estou… cansada. E quando canso, me vejo meio perdida, com o coração descompassado, assisto a um filme choroso. Pego o lencinho, fico com o rosto vermelho, o nariz entupido e os olhos inchados. Soluço por algum tempo e… pronto! Estou “zerada”!

É isso! Às vezes, só queremos um pouco de pipoca e uma panela de brigadeiro para raspar… E, assim, permitir que a vida siga… em frente!

 

 

 

 

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, Professora universitária e Escritora

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