Entramos em contato com Firdevs Uguz Tip, que declarou não ter sido responsável por encomendar esperma na Dogus e que nenhuma informação sobre o pedido pelo doador Finn havia sido passada para ela.
Ela também duvidou da confiabilidade do teste de DNA comercial de Beth e Laura. Não é possível concluir “com certeza” que foi empregado o doador incorreto, ela afirmou.
Uguz Tip também declarou à BBC que “não realizou tratamentos de FIV” entre 2011 e 2014, quando Beth e Laura foram pacientes, embora houvesse descrições detalhadas, no próprio website da Dogus, dos procedimentos oferecidos por ela durante aquele período.
A clínica Dogus que, segundo Uguz Tip, era responsável pelo tratamento de Beth e Laura, não respondeu ao pedido de comentários da BBC até a publicação desta reportagem.
Em 2015, Uguz Tip e Hodson haviam saído da Dogus e trabalhavam juntas em outra clínica, também no norte de Chipre.
Hodson não trabalha mais no território. Ela não respondeu aos questionamentos da BBC se teria transmitido o pedido de esperma para Uguz Tip.
Beth, Laura e as crianças realizaram outros testes de DNA, certificados, que podem ser utilizados na Justiça britânica. Eles confirmaram que James e Kate não têm relação biológica e não foram concebidos com esperma do mesmo doador.
A professora Denise Syndercombe Court, especialista em genética forense, analisou todos os testes da família. Ela afirma ser improvável que qualquer uma das crianças seja biologicamente relacionada ao doador Finn.
Conversamos com a Cryos International, o banco de esperma na Dinamarca de onde Beth e Laura, além de outra família ouvida nas nossas investigações, acreditavam que o esperma teria sido encomendado.
“Temos muitos processos de segurança, mas nunca darei a você 100%. É humano”, afirma o CEO da empresa, Ole Schou, acrescentando que este tipo de erro nunca foi registrado nos 45 anos de história da Cryos.
Diversos especialistas em fertilidade de toda a Europa declararam à BBC que a possibilidade de um único uso acidental de um doador incorreto durante um procedimento de FIV é rara.
Mas a ocorrência de um erro desta magnitude mais de uma vez, envolvendo a mesma equipe médica, poderia sugerir “negligência” ou até “fraude”, segundo os especialistas.
“É uma situação absolutamente terrível para os pacientes”, diz o médico Ippokratis Sarris, da Sociedade Britânica de Fertilidade. “Nunca soube de um incidente como este no Reino Unido. O maior medo de qualquer unidade de FIV é misturar um óvulo, esperma ou embrião.”
O norte de Chipre tem suas próprias leis de fertilidade. Mas, ao contrário do Reino Unido, não tem um organismo independente para regular o setor, monitorar as clínicas, fiscalizar padrões e, se necessário, revogar licenças.
A advogada e ativista Mine Atli vive no território. Ela afirma que “as clínicas que respeitam a lei o fazem porque seus proprietários têm consciência”. “Não é algo que o Estado as force a fazer.”
A regulamentação é cara, o que pode aumentar o custo do tratamento em países como o Reino Unido.
Sarris afirma que este é um dos motivos pelos quais ele suspeita que Chipre tenha se tornado um destino tão popular para o tratamento de fertilidade.
A BBC também ouviu preocupações com a saúde mental de pessoas que venham a descobrir que seus doadores não sejam quem elas acreditavam que fossem. Esta revelação pode trazer “repercussões significativas”, afirma Nina Barnsley, da organização britânica Rede de Concepção por Doadores.
‘Não quero mentir para o meu filho’
A BBC conversou com outras duas famílias britânicas, tratadas por Uguz Tip mais recentemente do que Beth e Laura. Elas também acreditam terem recebido material de doadores incorretos.
Elas não quiseram se identificar, mas foram pacientes do Centro de FIV Miracle, criado por Firdevs Uguz Tip, em 2019.
As duas famílias precisavam de doadoras de óvulos para criar seus filhos e suspeitam que os óvulos recebidos não foram os selecionados. Os testes de DNA confirmam seus temores.
“Não quero que as pessoas pensem que preciso ter um bebê que se pareça comigo, não é esta a questão”, diz uma das mulheres, Kathryn (nome fictício). “Eu só não quero mentir para eles sobre a sua origem.”
Quando dissemos a Uguz Tip que as duas famílias se sentiam ludibriadas, ela respondeu que a escolha das doadoras de óvulos havia sido “feita exclusivamente” pelo centro de FIV Miracle.
Ela também afirmou que sua clínica não fornece aos pacientes perfis de doadoras de óvulos que descrevam uma “pessoa específica” e que nunca oferece garantias sobre a etnia de um doador.
Segundo Uguz Tip, estas informações são incluídas nos formulários de consentimento assinados por todos os pacientes antes do tratamento e “comunicadas abertamente”.
Mas as duas famílias com quem conversamos afirmam que pensaram ter escolhido um doador específico e que nunca foi esclarecido para elas que a escolha final seria feita pela clínica.
A BBC observou perfis de doadoras de óvulos fornecidos a Kathryn e à outra família pelo centro de FIV Miracle, todos aparentemente mostrando mulheres específicas.
Kathryn afirma que ama seu filho incondicionalmente, mas que não teria dado prosseguimento ao seu tratamento de FIV se tivesse sido totalmente informada de que a doadora que escolheu poderia não ser utilizada.
Uguz Tip declarou que todos os tratamentos realizados por ela na Miracle estavam de acordo com a legislação e que não poderia responder a todos os questionamentos da BBC para manter a confidencialidade dos pacientes.
‘Ainda somos uma família’
Faz dois anos desde que Beth e Laura contaram a seus filhos que Finn pode não ser o doador dos espermas que os geraram. James ainda está tentando aceitar a descoberta da família.
“Você não pode simplesmente dizer que alguém é alguma coisa e, depois, que não é. Isso é ruim”, afirma ele. “Identidade é o mais importante. É quem você é como pessoa.”
Agora, as crianças sabem que não têm relação biológica. Mas isso não mudou o amor que têm um pelo outro. “Nós crescemos juntos e nossas mães nos criaram”, afirma Kate. “Ainda somos uma família, mesmo que não de sangue.”
“Temos dois filhos adoráveis”, contam Beth e Laura. “No fim, tudo ficará bem.”