AS CARTAS – Alberto Rostand Lanverly

AS CARTAS –

Adoro as cartas… talvez minha paixão pela escrita tenha surgido muito cedo, ao fazê-las, de forma despretensiosa, escrevendo para mim mesmo, em forma de diário ou quando, no período das férias, ausente do lar paterno, em folhas de caderno, enviava notícias para meus familiares descrevendo os acontecimentos e novas aventuras que me envolviam a cada dia.

Preparar uma carta despertava em meu coração o soberano poder de acomodar a imensidão do universo onde vivia, em somente algumas linhas de papel, cujo conteúdo, posteriormente interpretado, deixava-me a certeza de, que em minha alma, encontra-se a energia do mundo e o silêncio da sabedoria. Eu precisava apenas transformar tudo em letras.

As cartas perderam sua utilidade nos tempos modernos, mas nunca seu glamour… Recordo quando, ainda jovem, fui estudar fora de Maceió e, um belo dia, compareci ao cemitério da cidade onde residia… Para minha surpresa, em uma das lápides vislumbrei uma imagem retratando dois esqueletos, de mãos dadas e sentados sobre o sarcófago. Inexistiam nomes de pessoas ou datas de qualquer espécie, somente a frase: “unidos para sempre”. Aquela visão me impressionou.

Assim que retornei à casa, escrevi a meus pais, relatando o fato e lembro que questionei: quem teriam sido eles? Quais seriam seus nomes? João, Maria, Pedro ou Josefa…? Haviam sido casados ou somente amantes? Fora ele um engenheiro, professor, ou simplesmente um homem do povo? E ela, seria “ela”, mesmo?  Se ao menos estivessem vestidos… mas ali se encontravam somente os ossos, com os dizeres: “unidos para sempre”.

Dias depois, recebi a resposta, e, para minha surpresa, meu genitor mais ou menos assim escreveu: “a respeito de seus questionamentos sobre os mortos, já sem carne e somente costelas, crânio, etc…, eu lhe digo que eles eram, acima de tudo, sábios, pois, para estarem ainda sentados um ao lado do outro, demonstrando que nem a morte os separara, é porque viveram a vida sem buscar defeitos um no outro, para gerar uma situação tensa e negativa. Muito pelo contrário! Com sinceridade, devem ter mirado os pontos fortes de cada um, fazendo florescer as melhores conquistas humanas. Encontrar defeitos é fácil, qualquer um pode fazê-lo”.

Hoje, o tempo passou e os cabelos cor de prata, aos poucos se espalhando em meu couro cabeludo, me inspiram a certeza de que o segredo é seguir o que ensinou o poeta: “não correr atrás das borboletas… mas, sim, cuidar do jardim para que elas venham até mim”. Vejo as missivas, como jardins. Cultivando-as, escrevendo-as ou relendo-as, resta a certeza de que esta etapa, tão célere na vida de cada um, se chama presente e tem, somente, a duração do instante que passa… doce pássaro do aqui e agora, que, quando se dá conta dele, já partiu, para nunca mais… só restam as lembranças, escritas em uma carta…

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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