FAIR PLAY À BRASILEIRA – 

O atleta francês Renaud Lavillenie, campeão mundial no salto com vara, ao perder a medalha olímpica para o brasileiro Thiago Braz na Olimpíada Rio-2016, soltou o verbo em cima do modo de torcer do brasileiro. Apupado todas as vezes que ia saltar, ele alegou falta de espírito olímpico à plateia que lotava o Engenhão.

Num desabafo caloroso, depois de ser desbancado do pódio por Thiago, ele afirmou: “Em 1936 a multidão estava contra Jesse Owens. Não vimos isso desde então. Temos que lidar com isso”. Sutilmente, ele nos chamou de nazistas. Não sabe Renaud, que essa não era a opinião de Owens. Ao escrever a sua biografia, o atleta negro norte-americano declarou: “Não foi Hitler que me ignorou, quem o fez foi Franklin Delano Roosevelt. O presidente nem me mandou um telegrama”.

O desfecho dessa história é que o francês, medalha de prata, não parabenizou o brasileiro medalhista de ouro que o derrotou; o qual, por sua vez, recebeu efusivos cumprimentos do norte-americano Sam Kendricks, ganhador do bronze. Com humildade, Thiago justificou o episódio: “Ele não fala comigo há um ano”. Renaud Lavillenie vaticinou: “Daremos o troco daqui a oito anos na França!” – provável país-sede da Olimpíada de 2024.

Acontece de o brasileiro achar natural transferir sua maneira efusiva de torcer em estádios de futebol para qualquer palco onde se desenvolva uma disputa esportiva, mesmo naqueles que requeiram silêncio absoluto para concentração dos contendores. Age assim em final de Copa do Mundo ou em Olimpíada de Matemática, e até em sisudos torneios de Xadrez. Sente-se no direito de atrapalhar o opositor ao atleta ou time de sua predileção. É justamente aí que reside o problema.

Esportes como o tênis, o hipismo, o golfe e outros tantos requerem plena concentração de atletas no início e durante as disputas, e a gritaria atrapalha. Não serão apelos ou ordens de caluda, tampouco normas do Comitê Olímpico Internacional a conter esses apupos inaceitáveis para os padrões éticos dos jogos.

O interessante é que ninguém reclamou quando a torcida se bandeou para atletas estrangeiros, mesmo nas disputas com compatriotas. Assim ocorreu com Novak Djokovic, que deixou o país cativado pelo povo, chorando de tristeza por conta da péssima exibição nas quadras de tênis. Ou, Michael Phelps, que estampou numa faixa o seu agradecimento à torcida local (“Thank you, Rio!”), depois do desempenho de ouro nas piscinas do Brasil. Ensurdecido de felicidade também ficou Usain Bolt, o velocista jamaicano ao obter nas pistas da Olimpíada Rio 2016 a tríplice coroa nos 100 e 200 metros rasos.

O brasileiro assumiu o exercitou o lema “somos todos olímpicos”, e se danou a torcer sem limites. Corroborou a previsão do alemão Thomas Bach, presidente do COI, quando no discurso de abertura dos jogos preconizou que a Olimpíada do Rio de Janeiro seria um evento “à la Brasil”.

Numa nação onde se vaia presidente da República em evento internacional e não se respeita “minuto de silêncio”, o espírito esportivo cauteloso, o jogar limpo contido, a maneira leal e comedida de agir em arenas e estádios foram todos pras cucuias.

E o país, por sua vez, não decepcionou ninguém, a ponto de instituir um fair play à brasileira eivado de entusiasmo, emotividade… E vaias.

José Narcelio Marques Sousa – é engenheiro civil –  jnsousa29@gmail.com

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