POLÍTICA ENTRE TALHERES –
No dia 26 de julho de 1930 o dirigente-mor da Paraíba (então chamada “Parahyba do Norte”), João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, estava em viagem para tratos de assuntos oficiais e políticos no Recife, quando foi levado para almoçar com Agamenon Magalhães e uma trupe no clássico Restaurante Leite, já àquela época sediado no mesmo lugar de hoje e que me recebe para sagrado ágape às quartas-feiras, com um grupo de colegas e amigos.
Concluída a refeição, mas não os tratos eleitorais que visavam abreviar a saída do Presidente Washington Luis do Palácio do Catete – João Pessoa postulara a Vice-Presidência da República, sem sucesso, havia poucos meses –, a comitiva decidiu “lavar o espírito” com café e digestivo na Confeitaria Glória, nas cercanias, esquina da Rua Nova com a Rua da Palma. Em verdade, a “lavagem” que houve foi de sangue, sendo o Presidente paraibano morto a tiros pelo advogado João Dantas, por sua vez também baleado por Antonio Pontes de Oliveira, motorista do governante assassinado.
A Confeitaria Glória, palco do que deveria ser um grande acerto de um golpe para retirar os paulistas da chefia da Nação, após a tragédia experimentou um declínio que a levou a fechar as portas no dia 10 de julho de 1932, antes do segundo aniversário do crime em comento. O Restaurante Leite, criado em 1882, que por muito pouco escapou de sediar o tiroteio, continua firme e forte, consoante eu disse lá em riba.
Outro restaurante que entrou para a crônica política nacional foi o Piantella, de Brasília. Fundado em 1976, teve durante a maior parte da sua existência o comando do mineiro Marco Aurélio Costa. Batizado Tarantella, teve a denominação questionada judicialmente por empresa similar, mudando a placa para a que lhe deu fama. Aos originalmente estreitos salões, encimados por um mezanino, acudiram notáveis quadros da política do Brasil, mais para conversar e beber do que para comer. Dizem que o desbravador daqueles sítios foi Nelson Carneiro, espalhando sobre as mesas a bandeira do divórcio, hasteado no mastro da Lei 6.515, de dezembro de 1977. As tratativas da anistia (ampla, geral e irrestrita) foram desenhadas nos guardanapos do restô pelo Menestrel das Alagoas, Theotônio Vilella, bom de papo e de copo. Ulysses Guimarães, escoltado por largos tragos de poire (aguardente de pêra de origem francesa), lá montou a sua trincheira de luta pela redemocratização do país, recrutando praças como Mário Covas, Nelson Jobim, Bernardo Cabral, Marcos Freire, Tancredo Neves, Jarbas Vasconcelos e outros tantos. De sobremesa, a Constituição de 1988.
Apareci no Piantella quando o Doutor Ulysses já havia desaparecido no fundo do mar. Cauteloso e curioso fui respirar a história nacional que flutuava no ambiente, com parceiros que tinham a mesma finalidade. Acheguei-me mais vezes àquele cenário e certa feita aceitei convite do meu sempre professor, o Ministro José Delgado, então integrante do STJ, para formar mesa com o jornalista Ronald de Carvalho, a quem só conhecia “de tela” e por sobre ele pesar a pecha de parcial na edição do debate entre Lula e Collor, às vésperas da eleição presidencial de 1989, divulgado no Jornal Nacional, da TV Globo. Ainda reinei em perguntar-lhe sobre isso, mas a prudência ordenou silêncio, talvez por comando do espírito cabreiro de algum prócer que zanzava por ali. Depois ele mesmo assumiu a responsabilidade pelo fato, como dito por Juca Kifouri no “Observatório da Imprensa” e Mario Sérgio Conti, em “Notícias do Planalto – A imprensa e Fernando Collor”, da Companhia das Letras.
Voltei em outras ocasiões à renomada casa de pasto (e de beberagem…) do Planalto Central, inclusive para celebrar as posses dos amigos Luiz Alberto Gurgel de Faria e Marcelo Navarro Ribeiro Dantas no Superior Tribunal de Justiça. Uma das vezes antes dessas deparei-me com o Piantella vestido em nova estética. Não gostei (vigiem só o atrevimento…), pois achei uma estrutura pasteurizada, muito ampla e clara, parecendo alguns estabelecimentos nova-iorquinos de cozinha contemporânea e minimalista. Perdeu a graça de alcoviteiro do poder ou da oposição a esse. Dizia-se à boca larga (e colheradas também) que tinha sido comprado por bem sucedido advogado criminalista, que tentava salvar a empresa do naufrágio em dívidas. Ao que parece, não conseguiu. Nos últimos dias de agosto, mais um desgosto: o velho Piantella, mesmo trajando-se de jovem, cerrou-se.
Três histórias que cortam muitas outras. A garfo e faca.
Ivan Lira de Carvalho – Professor da UFRN e Juiz Federal
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