O PREÇO DA OBSERVAÇÃO –

Coloquei Pink Floyd e iniciei a caminhada do sábado. Apesar do belo cenário da praia de Ponta Negra, as vezes baixo a cabeça e olho para o chão. Acontece nos momentos de maior reflexão.
Ao olhar vi minha sandália e pensei no quanto já é antiga. Ai lembrei de suas companheiras e também de suas longevidades. Imaginei quantos lugares passaram, quantos países visitaram e quantas estradas me conduziram.

Geralmente demoro muito com meus calçados, roupas e cintos. Sou daqueles que não são notados neste aspecto.

A grande maioria das pessoas se não usar coisas extravagantes, passa desapercebida na repetição de peças.

Mas tem um grupo que não acha legal repetir tanto e consome bastante itens neste setor.
O mundo da moda virou uma febre para este segmento. Posts de roupas, sapatos, adereços ou produções chegam aos milhares e até milhões rapidamente.

Pessoas se interessam muito pela indumentária de outros, principalmente de artistas e vips.
Tenho algumas amigas que ganham muito bem, mas vivem dizendo que estão lisas. Elas praticamente não repetem nada, daí a grana não chegar.

Não estou criticando, apenas reflito sobre a diversidade da vida em todos os seus aspectos, mas arrisco opinar que as pessoas que observam e que são observadas por este aspecto, devem sofrer um pouco pelo fato de que festas, casamentos, agitos, jogos, viagens, aniversários, filmes, passeios e encontros são muitos, exigindo em cada um arranjo, uma produção, uma novidade, e consequentemente julgamentos, comentários e gastos enormes.

Sinceramente me sinto muito bem no grupo dos anônimos do vestuário. Uso o que tenho bastante e não perco um segundo do meu tempo na escolha. Olho e pego, só troco se descobrir que faltou um botão ou surgiu uma sujeira até então secreta.

Observar e ser observado não é para qualquer um. Está até sendo considerado uma arte, chegando ao patamar de editorias, com veículos de comunicação próprios e muitos eventos relacionados.

Observando de fora, sem compromisso, acho até bonito pois tudo é tão belo, mas como é perigoso, dispendioso e atrai muitos olhares, prefiro caminhar com as velhas e experientes sandálias.

No anonimato dos meus passos quanto menos olhos, melhor.

Flávio Rezende – Jornalista e ativista social

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

Ponto de Vista

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