GOVERNANÇA –
Ninguém pode estar alegre ou satisfeito com a tragédia da política brasileira. Depois de uma campanha eleitoral controvertida que levou o vencedor a adotar o programa econômico do vencido, sem dar satisfação aos que lhe tinham dado o seu voto de confiança, a credibilidade de Dilma praticamente se desfez no ar. Logo em seguida, tentou intervir na eleição da presidência da Câmara e perdeu fragorosamente!
Destruiu assim as relações de “independência” e “harmonia” que devem existir entre os poderes Executivo e Legislativo.
A partir daí foi uma sucessão de desastres. Nunca apoiou, convictamente, o ministro Joaquim Levy. Quando a assustadora e dramática recessão de 2015 se mostrou, o PT “descobriu” que ela teria sido produto do “neoliberal” Levy.
Ela, que se iniciara no 2º trimestre de 2014, teria sido produzida pela política econômica de 2015! No universo paralelo em que vive, o PT acha natural que um efeito preceda a sua causa.
Sob o ataque da “ciência” petista, Levy sofreu o pão que o diabo amassou. Seu programa separava com clareza o curto prazo (onde era necessário muito cuidado com a “eficiência” da despesa) do longo prazo, onde se restabeleceria a confiança entre o governo e o setor privado, a única forma de ampliar os investimentos (públicos + privados) e as exportações.
Foi boicotado e jogou a toalha…
Em 2016, Dilma substituiu Levy por Nelson Barbosa, também um competente economista, mas formado por uma “escola” muito diferente do neoliberalismo.
Suas propostas pareciam aproximar-se das que Lula havia aplicado com sucesso em 2003/09, em condições completamente diferentes. Bastaram umas poucas semanas para que Barbosa também fosse alvo da sanha petista.
Seu bom projeto para acomodar o que o pavoroso laxismo financeiro dos últimos anos criou nos Estados e municípios, alongava os prazos de pagamento das suas dívidas, mas lhes impunha condicionalidades absolutamente necessárias. Foi vetado pelo PT!
O Executivo, por absoluta falta de protagonismo, deixou o problema caminhar para o Supremo Tribunal Federal, que o “empurrou com a barriga”, à custa de maior deficit primário em 2016. Ainda agora votou-se na Câmara a urgência do aumento do Judiciário, com a desculpa de que “não há custo porque já está no orçamento”… Sim, num orçamento que prevê um deficit de 2% do PIB!
Não há governança. A nação precisa encontrar, o mais cedo possível, uma saída para esse impasse.
Antonio Delfim Neto – Professor e Ex-Ministro da Fazenda (Publicado originalmente na Folha de São Paulo)
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