ARTIGO: Ana Luíza Rabelo

Caça às bruxas –

Durante os séculos XV a XVII, o mundo passou pelo que chamamos de “caça às bruxas”. Pessoas eram perseguidas por seus dons, por sua beleza, inteligência, habilidades com plantas, religião, política, poder e orientação ou conduta sexual. Também sofreram os visionários, os artistas, os revolucionários, os inocentes, os mentirosos, os que sofriam de quadros de desorganização mental e fofoqueiros.

Os castigos aplicados poderiam levar à morte do acusado ou apenas causar-lhe dor intensa para que servisse de exemplo a todos que poderiam sair da linha.

Em algumas ocasiões, não era nem necessário preencher algum requisito, bastava ser malquisto, não se encaixar no “grupo”, não corresponder aos padrões, já arcaicos naquela época, para ser investigado, julgado e condenado, sem direito à defesa ou qualquer instrumento passível de absolvição. Sem julgamento justo, sem resposta, sem defesa.

Algumas táticas eram bem peculiares, e a absolvição chegava ao mesmo tempo da morte. As formas utilizadas para tortura ou morte são em sua maioria ofensivas demais para serem descritas. Mas, pelo menos três séculos depois, ainda caçamos as bruxas.

E não adianta olhar para o lado e fazer cara de “eu não”. Fomos todos adestrados a tal ponto de que tudo o que é diferente, tudo que foge da normalidade (aliás, o que é normalidade?), todo aquele que sonha em seguir um caminho contra a maré das multidões, caminhando em sentido contrário, é uma bruxa, um feiticeiro, um… um qualquer coisa cujo significado não entra na nossa pequena e estreita forma de encarar o mundo.

Eu, particularmente, acho engraçado que não se admire ou valorize as culturas indígenas e africanas. Pelo contrário, “eles” (ou nós, pois não conheço muita gente de DNA puramente europeu) têm que agir, pensar, rezar e responder de acordo com o que a pequena alta sociedade dominante determina.

Esmagamos culturas belíssimas, puras, cheias de cores, de amor e respeito pela natureza. Vendemos os conhecimentos medicinais dos nossos ancestrais e recebemos quinquilharias por eles. E agora temos que comprar nossa medicina em farmácias, pois antes uma vitamina C, de alto custo, com corantes e açúcares em excesso, que um “copão” de folhas de mastruz com leite. Ainda porque o mastruz nasce em todo lugar, é barato e é “feio”, de modo que sempre o arrancamos de nossos jardins e quintais.

Todo o conhecimento da ciência comum foi trocado apenas de mãos, pelo mesmo conhecimento, só que dessa vez com uma “marca” e aprovado por enormes quantidades de dinheiro e tecnologias.

Soma-se o fato de que quem manipula as ervas tem um conhecimento “sobrenatural, misterioso, potencialmente perigoso e, por que não, mágico”!

Nós caçamos nossos companheiros, nossos amigos, inimigos e irmãos. Caçamos com fúria e agressão. Caçamos os que não têm nossa origem, o nosso tom de pele, o grau de educação e instrução, nosso padrão social, nossa forma de conduta e postura como se só essa fosse a correta.

Vamos crescer, mostrar a evolução da raça humana ao longo dos séculos. Vamos aprender, respeitar e celebrar as diferenças porque isso é o que nos torna humanos e dignos de receber as mesmas cortesias.

 

Ana Luíza Rabelo Spencer, advogada (rabelospencer@ymail.com)

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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