ARTIGO: Adauto José de Carvalho Filho

Uma tragédia anunciada.

O escândalo que envolveu o Senador Romero Jucá, um dos homens fortes do governo Temer foi um “tsunami” para o início de um governo que cambaleava ante as contradições políticas do sistema presidencialista, onde o presidente é “obrigado” a vender a alma ao parlamento que, como prova os acontecimentos recentes e os históricos, não nutre qualquer sentimento republicano, e era um escândalo inevitável. Atualmente, não há mocinhos na política brasileira e os passos de quem queira romper com a redoma da corrupção serão dificultados ou impossibilitados, a qualquer custo, imagine quando o próprio governo dá o motivo. As indicações de pessoas envolvidas com a operação “Lava a Jato” pegou mal na sociedade e não acredito que um homem com a experiência política de Temer não tenha avaliado os riscos de manter Romero Jucá e Henrique Eduardo Alves, tidos e reconhecidos como homens fortes do Presidente interino, como Ministros e as consequências que isso representaria. Apostou no erro e deu com os burros n’agua. Falta de aviso não foi, mas soberba diante dos prenúncios que sacudiram o país desde a indicação dos dois companheiros de legenda. Temer cometeu o erro de confundir os apreços pessoais com o decoro que o cargo que ocupa, mesmo interinamente, exige.

Como cidadão, entristeço em ver um governo que deveria ter a missão de mudar o cenário da endêmica corrupção que se alastrou no país, tropeçar nos primeiros dias de vida e comprometer um trabalho que se apresenta coerente. As propostas para a transição com o futuro governo, assim considerando a permanência de Temer até 2018, foram aceitas e consideradas alcançáveis, graças a credibilidade dos técnicos alçados para conduzir a política econômica, mas foram engolidas pelo escândalo envolvendo o Ministro Jucá que, além de atentar contra a República insinuou uma conspiração contra a operação Lava a Jato e, como tudo tem o lado positivo, ferrou-se. Quem se meter a besta contra a força tarefa comandada pelo Juiz Moro será fatalmente desprezado pela sociedade.  A Operação Lava a Jato transformou-se em símbolo nacional, apesar das barreiras impostas pelos poderes executivo, legislativo e judiciário. O juiz Sérgio Moro mostrou que o país tem jeito, apesar dos escândalos envolvendo o poder executivo; que a corrupção pode ser combatida, apesar do envolvimento generalizado de todo o parlamento; que a justiça pode ser feita, apesar dos contra golpes do Supremo Tribunal Federal que, como crianças emburradas, com a fantasia da Batman, ficam colocando toda espécie de dificuldades ao seu trabalho e, mesmo assim, conseguiu resultados nunca antes vistos na história desse país e expõe o estado de apodrecimento da República. Não temos poderes, mas conveniências; não temos homens públicos, mas bandidos, em todas as esferas e níveis de governo.

Mas algo mudou no reino das hipocrisias republicanas em que se tornou o poder dominante do país. Todos os “cartolas” estão na mira da operação Lava a Jato e, em consequência, da sociedade. O Brasil já admite que os nossos homens públicos, permitam-me o erro da generalização, mas se alguém quiser colocar a mão no fogo por alguém fique a vontade;  são criminosos e fomentam todas as mazelas que estamos passando. Temer tentou iniciar certo, mas errou onde todos erraram. Acoitar amigos como Ministros e, assim, distanciá-lo das garras da justiça que funciona e colocá-los no colo da que não funciona, segundo se depreende das palavras do Ministro Barroso, em entrevista a Veja, de que 69 processos envolvendo autoridades republicanas e corrupção, sob o manto do STF, prescreveram. Resta saber a motivação, eis o problema. O Ministro Teori mantém Lula sob sua proteção a titulo de que? As autoridades brasileiras não se acham devedoras de explicações à sociedade. São deuses que gravitam em orbitas até então inalcançáveis, mas que começaram a perder altura a partir de um Juiz de primeira instância que honra a toga que usa. Lula é o grande paradigma da atual crise e sua prisão, como a de Dirceu, seria o início de uma derrubada geral do atual “status quo” político. Todos são cúmplices e culpados. Eu continuo acreditando que a justiça triunfará apesar do intenso esvoaçar de togas encobrindo malfeitores.  É a repetição da história de David e Golias. Um juiz monocrático pôs a República em cheque e mostrou a estranha face do STF nos meandros do poder. Mas, vamos para frente. A guerra está em curso. A República e suas aberrações contra Moro e a sociedade. Várias batalhas foram ganhas e há motivação para novos confrontos. As fichas estão caindo e na rampa da história cada um receberá o tratamento devido. E a história não costuma errar. Diariamente, cai um ícone. Em breve teremos uma República de anônimos devido à inapetência dos atuais detentores do poder, em todas as esferas e níveis, de não buscar-se no bem coletivo, senão em seus próprios interesses pessoais e corporativos.

O jogo continua.

Carroção de seis, quem passa?

Adauto José de Carvalho Filho – AFRFB aposentado, pedagogo, Contador, Bacharel em Direito, Consultor de Empresas, Escritor e poeta.

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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