ARTIGO: Adauto José de Carvalho Filho

A VIÚVA DO SOL: UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA – 

Em diversos e breves artigos, publicados nos jornais de circulação no Estado, alguns aqui neste Blog Ponto de Vista, eu abordei fatos relacionados com a falência do Estado Brasileiro e apontei o contexto político atual, onde a identidade e a dignidade institucionais foram estupradas e o conceito de honra nacional virou uma medíocre babel entre os poderosos da República. É impossível, em qualquer momento da vida nacional, não nos depararmos no vazio em que se tornou o poder, em todos os níveis e esferas e que se reflete no cotidiano da nação. Quando o poder e os poderosos se fecham em seus gabinetes e privilégios para tratarem, a boca miúda, os indefinidos caminhos para o país, reciclando incompetência e inutilidade institucionais, comuns na história republicana, que já não representam os anseios da sociedade, o resultado é um país esfacelado, um governo sem rumo, um parlamento sem personalidade e atolado em denúncias e um judiciário leniente.

É o que vemos. É o que temos.

Um processo de impeachment que se desdobra por dias, meses, numa perversa trama entre as forças poderosas, sem a menor preocupação com o presente do país, já que o futuro nos foi roubado e o poço chegou ao fundo; se é que ainda tem poço e, mais incrédulo ainda, com fundo. Não quero parecer atrevido, mas me espelhar nos noticiários que estarrece o mais “ZEN” dos brasileiros. Um pacto federativo falido torna o quadro ainda mais caótico, mas com um custo calculado na ponta do lápis. Os governos brasileiros jogam dinheiro pela janela, sem critério algum, mas sabem arrecadar, suficiente e eficientemente, tributos que venham financiar a imoralidade que vivemos.

Pagamos muito (e quase tudo que temos) e recebemos pouco (ou nada) de um Estado que apodreceu na incompetência no exercício de suas atribuições e nos desmandos dos recursos públicos e, com as caras mais lambidas, tentam por, em águas mornas, a grave situação que atravessamos e tudo encontra guarida no proselitismo mediocrizado ou nos criminosos meandros que palmilham as relações oficiais. Um pergunta se torna necessária. Para que serve o Estado Brasileiro? Um executivo irresponsável, um legislativo conspirador e um judiciário com os olhos propositalmente vendados, dão mostra do real valor de cada um, apesar da deslealdade com que assalta o cidadão ao extorquir, mediante uma carga tributária autofágica, o dinheiro bastante para vê-los macular a soberania nacional e brincar com a sociedade.

Soberania, desmoralizada; autonomia, lograda; cidadania, roubada. É o resumo do Estado Brasileiro e continuamos a sustentá-lo e aos seus inúmeros braços, nada republicanos e amargamos uma crise ética e moral que a tudo e a todos destrói. Registra o folclore político (ou um dos muitos boatos que ninguém nunca sabe explicar) que em uma suposta reunião com os Estados do cone sul, o diplomata representante do Brasil tentou “empulhar” o representante da Bolívia, questionando-o sobre as razões de manutenção de um Ministério da Marinha, se não tinha mar. O boliviano, calmamente, sabendo da idiotice de ambos, retrucou que pelas mesmas razões que o Brasil mantinha um Ministério da Justiça, se pelas plagas nacionais, não tinha justiça (ou se tinha, estava em falta). Nem contrabandeada do Paraguai. A justiça está diretamente relacionada com a punidade dos criminosos, assim como a impunidade está diretamente relacionada com todas as mazelas nacionais. E são muitas e, pelos registros históricos, negligenciadas no decurso de séculos. Muito bem. De impunidade em impunidade chegamos ao calamitoso quadro da segurança pública. O país virou terra de ninguém. O crime atemoriza o Estado, que se queda à própria incompetência.

A nossa bela e querida Natal, noiva do sol, vive momentos dramáticos. O crime ordenou toque de recolher e aí começa o drama. As autoridades, ungidas por um forçoso senso de responsabilidade e com cenhos franzidos, se apresentam à sociedade com mais temor do que o cidadão, que é atacado, e tratam a selvageria que tomou conta do Elefantinho como algo novo, causado por algum fato superveniente.

Eu gostaria muito de acreditar se o atual governador não tivesse sido eleito com o sonho da segurança pública; que no decurso do seu mandato fosse minimamente eficiente para combater as inúmeras rebeliões de presos ou avaliar seriamente as dificuldades; se não tivéssemos “ontens” marcados por rebeliões, fugas de presídios e outras rotinas no explosivo sistema prisional. Por aqui, presos viraram tatu e fazem túneis mais rápido do que uma empreiteira e sem cobrar por fora, mas para levá-los para fora. As nossas prisões viraram urupemas e as autoridades continuam utilizando-as para cobrir o sol. Resultado: não temos segurança. Nunca tivemos. Quando tem carro, não tem gasolina; quando tem carro e gasolina, não tem pneus; quando tem carro, gasolina e pneus, não tem motoristas; quando tem carro, gasolina, pneus e motoristas, acontece uma greve por não pagarem as horas extras devidas aos policiais civis e militares e, de forma trágica, brincadeira a brincadeira, cenhos em busca de botox, o RN vive à mercê dos humores do crime organizado. O alto comando vira a madrugada em reuniões e os bandidos em ações.

Das reuniões nada mais do que as desculpas conhecidas ou belas frases de efeito; das ações dos bandidos, uma realidade triste e trágica que não se pode negar. E, alguém, com os punhos engomados, tira uma carta da salvação: as forças armadas. Espero que resolva, embora duvide. As forças armadas não são treinadas para a segurança pública urbana. A sua missão constitucional é outra, mas tudo bem, que venha. E quando terminarem a missão especial e voltarem aos quartéis? Se alguém tiver uma esperançosa resposta que termine esse artigo. A tragédia era, é e continuará sendo anunciada. Sinceramente, lamento, mas negar a realidade é hipocrisia. Temos um Estado oneroso e inservível, mas fazer o que se somos nós que escolhemos os detentores do poder e permitimos que, indefinidamente, brinquem com a nossa soberania e nossa autonomia.

Ah, uma ideia súbita. Por que não chamamos o exército de Stédile, afinal, pelas notícias que correm, recebe mais dinheiro do que as forças armadas. É o braço armado do governo? Qual governo? Não entendi e nem quero entender. Vou dormir e sonhar com uma Natal, ainda noiva do sol e amante da lua, em lascivo romance entre as águas do Rio Potengi e do Oceano Atlântico onde, em cenário lúdico e brejeiro, os cidadãos podiam ir e vir em paz e sem medo de serem carbonizados no meio do caminho, que não tem uma pedra, mas tem escombros de uma guerra que vitima a todos.

Eles lamentam, nós morremos.

Adauto José de Carvalho Filho – AFRFB aposentado, pedagogo, Contador, Bacharel em Direito, Consultor de Empresas, Escritor e Poeta.

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

  DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,2280 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3990 EURO: R$ 6,0200 LIBRA: R$ 6,9370…

20 horas ago

Brasil reduz em 72% mortalidade de crianças menores de cinco anos desde 1990, aponta relatório da ONU

Em 1990, a cada mil crianças nascidas no Brasil, 25 morriam antes de completar 28 dias de…

21 horas ago

Quanto tempo você precisa trabalhar para comprar comida em Natal?

Você já parou para pensar quantas horas por mês é preciso trabalhar para comprar comida…

21 horas ago

EUA usam bomba de penetração contra posições do Irã no Estreito de Ormuz, diz Comando Central

O Comando Central dos EUA disse ter utilizado nessa terça-feira (17) bombas de penetração profunda…

21 horas ago

Supremo condena deputados do PL por corrupção passiva

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou nessa terça-feira (17) dois deputados federais…

21 horas ago

PONTO DE VISTA ESPORTE – Leila de Melo

1- Hoje é dia de Clássico-Rei! A venda de ingressos para o primeiro jogo da…

21 horas ago

This website uses cookies.