ARTIGO: Adauto José de Carvalho Filho

UM QUADRO COMPLEXO – 

“Você disse que não sabe se não/ Mas também não tem certeza que sim” (Djavan) – 

Um governo que se propõe assumir o comando do país em momento tumultuado tem que transparecer maturidade, segurança e coerência. Eu sei que o quadro é complexo, mas “recuos” em nada ajudam e muito prejudicam. Mostra fragilidade e mendicância de apoios. O governo Temer, que se propôs a tarefa de conduzir o país na mais severa crise a que foi submetido, está perdendo a credibilidade por decisões precipitadas ou posicionamentos dúbios. O Congresso começa a apontar uma ruptura na base de apoio parlamentar e se aproveita dos recuos para justificar ou encobrir a ganância por espaços no governo ou a necessidade de notoriedade. Fazer oposição, em momentos de crise, é simples e fácil.

O PT mostra o nível da irresponsabilidade que parlamentares e o próprio partido podem fazer da desconstrução, técnica utilizada por todas as ditaduras e arma de persuasão coletiva no governo Stalin, o único objetivo para se manter em evidência.  O discurso perdido pode ressurgir pela certeza da inconsciência politica da sociedade. É a velha teoria do buraco. A sociedade passa quatro anos fazendo pressão contra o prefeito por causa de um buraco que aflige os motoristas que trafegam na principal avenida da cidade. O prefeito perde a eleição e o outro assume e, no dia seguinte, passa a ser o responsável pelo buraco e não importa se outras medidas estão sendo propostas se o buraco não for tapado. É o que está acontecendo com o governo Temer.

A alusão a escândalos ou a rombos na administração, como o supostamente ocorrido com o BNDES, o Bolsa Família, a existência de funcionários fantasmas, a Eletrobrás, a CUT, a UNE, a Lei Rouanet, entre outros, se tornam falaciosos se não acompanhados das medidas para corrigi-los ou a fundamentada denúncia para os órgãos responsáveis pela apuração dos fatos. O Brasil acordou e, como é natural, ansioso por justiça. Apontar e não corrigir é conivência ou, pior, agir irresponsavelmente como o próprio PT. A banalização do roubo do dinheiro público e a impunidade estão arrastando instituições como o STF, que deveria ser o grande mediador do atual e complexo momento nacional e referencial de um órgão que respeita o Estado, a sociedade, a Constituição. Não é o que vemos.

Todos os dias são anunciadas novas delações, mas perderam o sentido de tempestividade ou utilidade. Se, até agora, não encontraram fundamentos jurídicos para se prender os chefões da quadrilha que deixou o país à míngua, tais delações passam a ter o sentido de leniência com os figurões que estão envolvidos ou presos, como é o caso de Marcelo Odebrecht. Um dos rumores que deu base social para a admissibilidade do impeachment da Presidente Dilma, embora não constante da denúncia, foi a divulgação de conversas gravadas entre ela e Lula, com evidente tentativa de obstruir a justiça. Temer, com menos holofotes, não agiu diferente. A nomeação de Ministros com o rabo preso (e corruptos de carteirinha) é uma sombra que já assombrou o governo duas vezes e, logo, outros assombros virão.

A base do discurso do governo é a crise herdada dos governos petista, o esforço necessário para conciliar as contas públicas e as medidas anunciadas pela equipe econômica são promissoras e indicadas para inibir a infecção generalizada que acometeu o tesouro nacional, mas, em contrapartida, o governo começa a anunciar aumento de gastos com a folha de pessoal e a liberação de bilhões para o filho de Renan Calheiros dá continuidade ao projeto de transposição do Rio São Francisco, ou sob essa justificativa, sem contar a ameaça que ronda os bolsos dos brasileiros, já vazios em função da alta taxa de desemprego e de uma inflação real bem acima da reconhecida pelo governo, outro expediente de enganação; e a criação de novos tributos, possivelmente, a CPMF, uma contribuição odiada pela sociedade e altamente onerosa para uma economia em crise, pelos seus efeitos em cascata.

A desconfiança ronda o planalto. Os recuos são vistos como tramoias incompreensíveis ou indesejadas, arquitetadas no escuro das noites brasilienses, como sempre aconteceu e rotula o governo Temer como mais um novo governo com antigas práticas políticas. Os casos do MINC, onde houve um recuo precipitado e o da CGU, que atingiu um órgão em evidência atualmente, por serem conflitantes com a postura anunciada, mostra para a população que o asfalto dos caminhos da corrupção permanece em bom estado de conservação e convidativo às práticas corruptivas comuns no meio político brasileiro e por onde derraparam Jucá e Silveira, ao serem pegos em plena conspiração contra as operações de combate a corrupção, o único símbolo que merece crédito da população. Quando Temer anuncia que não haverá retrocesso nos mecanismos da Operação Lava a Jato, por maior que seja a verdade, soa falso para a sociedade. São meras palavras desprovidas de ações que venham demonstrar um verdadeiro apoio e de conversa mole o cidadão está cheio.

Em nenhum momento afirmo que o governo Temer está inviabilizado, mas, para que volte a ter a mesma credibilidade de dias atrás, é preciso mais do que palavras vãs, discursos linguisticamente corretos, colocações intelectualizadas dos pronomes; é preciso o mínimo de coerência com o esforço que a sociedade está fazendo e o sofrimento que está passando e evitar que “dândis” de altas patentes ponha em dúvida os últimos valores sociais que apontam para alguma luz no fundo do túnel, enquanto o túnel não é objeto de tenebrosas transações. Como ensinou Louis Bonald, pensador e filósofo francês, “Numa sociedade bem organizada os bons devem servir de modelo e os maus de exemplo”; e pela falta de modelos, até que se prove o contrário, cambaleia a malfadada República Federativa do Brasil.

Adauto José de Carvalho Filho – AFRFB aposentado, pedagogo, Contador, Bacharel em Direito, Consultor de Empresas, Escritor e poeta.

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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