Diógenes da Cunha Lima
Tive o privilégio de estar com Wodem Madruga quando entrevistava Sanderson Negreiros no programa Memória Viva, que, graças a Deus, a TV Universitária dá continuidade. Wodem, também amigo de mais de cinqüenta anos, provocou o entrevistado para que dissesse, nas origens, a sua participação literária. A resposta foi surpreendente. Saído do seminário, quase menino, encontra Dorian Gray e faz a pergunta: você acredita em Deus? Então, Dorian levou-o à casa de José Patriota, irmão de Nilson, para apresentá-lo aos intelectuais da terra. Tem sido sempre assim. O nosso maior artista plástico passa a vida a promover cultura.
A arte é oficio nobre quando vivida com intensidade e ternura como acontece com Dorian. Dorian Gray Caldas teve Eloi como pai, cedo perdido, e a quem diria em poema: Teu filho aprende / o difícil ofício / dos adultos. Foi difícil, mas aprendeu.
Não posso ver Dorian sem me lembrar de azuis e de marinhas. O mar e o azul estão nas suas retinas, nos esconderijos do seu cérebro e são despertados e conquistados pelo movimento de suas mãos hábeis. Quando menino, já poderia dizer à maneira do poeta espanhol Miguel Hernandez: “Conquistarei o mar…”
As marinhas do nosso escritor são o mar domado, conquistado pela sedução da beleza calma: “Uma calma / que o mar põe nos olhos / dos velhos marujos.”

A teoria literária sempre tem aliado a poesia à música, ao canto, à dança. O ritmo como origem, a poesia deve ser música, som e audição. Esta é a corrente maior, mais forte, dominadora da maioria. Miguel de Unamuno elevou a tese proposta de que a poesia é arquitetura, construção. Tridimensional. No Brasil, o grande doutrinador é João Cabral de Melo Neto, poeta seguidor deste liame, de construção. Para mim, Dorian Gray não aliou a sua poesia à música e nem à construção, mas à pintura, sombra e luz, terceira dimensão apenas como perspectiva.

O poeta vê também “azul nas pontes desoladas” e “azul em mim entardecido”. Até a condição maior de existir é apresentada como “os claros e escuros da vida.”
O sempre surpreendente e homem bíblico, acadêmico Sanderson Negreiros (que é também Deodato, dado por Deus), anotou: “Pintou de marinhas, é dos melhor neste País, souberam ver, transfigurar, rever e modificar o grande mar-nordestino e do mundo -, que espreita, como cão dormindo no horizonte, o sentimento que nos faz adivinhar o mistério e consumi-lo como garantia de sobrevivência, a que nos deverá ligar à vida que virá depois da morte.”
E o seu colega também no sentido marinheiro, acadêmico Newton Navarro pontificou: “Quantas vezes diante do mar o seu pincel descobre matizes que facilmente, outro pintor não descobriria! Pinta e o mar passa inteiro para as suas telas.”
Dorian Gray reabilitou, revalorizou o nome famoso. Que não é pseudônimo. Outros ainda lhe farão o retrato. Verdadeiro, viril, criador, que engrandece a nossa cidade.

Diógenes da Cunha Lima – Poeta, escritor, advogado e presidente da Academia de Letras do RN

Ponto de Vista

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