ANTIGOS AMIGOS –

Semana passada recebi telefonemas de número desconhecido aos quais me recusei no início atender com receio de ser vítima de algum golpe cibernético. Na terceira chamada ao observar o DDD da terra, embora ainda ressabiado, esperei cair o toque e forcei o contato.

Após o meu “Alo! Quem deseja falar comigo?” ouvi uma voz rouca e cansada perguntar: “Falo com o doutor Narcelio?” Ante a resposta afirmativa o interlocutor se identificou: “Amigo, aqui é José Eufrânio!” Quão grata foi a minha surpresa. Tratava-se de um colega, professor da Escola de Engenharia, ex-diretor do DER-RN, com o qual eu não conversava há décadas.

Não cheguei a ser seu aluno, mas por cultivarmos a mesma paixão pelo rodoviarismo e atuarmos na mesma área nos tornamos amigos. Daí o papo descontraído e saudosista, daqueles de levantar o astral aos píncaros da satisfação. Ao desligar o celular bateu-me tamanha nostalgia que me fez lembrar o repertório de Osvaldo Montenegro, notadamente, nas interpretações de “Velhos Amigos” e “A Lista”. Na primeira canção, ele diz: “Velhos amigos vão sempre se encontrar/Seja aonde for, seja em qualquer lugar/O mundo é pequeno, o tempo é invenção/Que o amor desfaz na tua mão”

Na outra ele sugere: “Faça uma lista de grandes amigos/Quem você mais via dez anos atrás/Quantos você ainda vê todo dia/Quantos você não encontra mais.” Puxa! Quantos desses velhos amigos eu não encontro mais…Há dez ou sei lá quantos anos atrás. Perdi as contas. Pode ser por descaso meu, talvez, por falta de iniciativa deles. Mas não é para ser assim.

Eu tenho cá minha maneira de tentar contatar com alguns desses estimados amigos antigos enviando-lhes meus escritos pelo celular. Sou lido pela maioria deles, asseguro isso porque observo a mudança de cor no sinal que caracteriza o recebimento da mensagem. Mas, eu poderia estreitar o relacionamento com um simples telefonema como fez José Eufrânio comigo.

A verdade é que nos postamos fechados em nossas próprias bolhas existenciais negando-nos a escapulir das rotinas que criamos, preferindo ficarmos “…sentados no trono de um apartamento/com a boca escancarada, cheia de dentes/esperando a morte chegar…”, da maneira como Raul Seixas externou a sua revolta na canção “Ouro de Tolo”.

“Telefono ou não para Fulano? Será que incomodarei, Sicrano, com a ligação? Como reagirá ao meu contato, Beltrano?” Cara, paremos com tantos questionamentos descabidos. Por que nos anteciparmos aos fatos imaginando situações de recusa inusitadas? Afinal, são ligações entre velhos amigos cujos contatos podem até esmaecer ante a distância e o tempo, mas não perdem o teor nem a consistência do sentimento que as forjaram.

A presença e as conexões com velhos amigos são fundamentais para a saúde mental e salutar para o equilíbrio físico do indivíduo. Os quase três anos da pandemia da Covid-19 alargaram esse fosso nos relacionamentos interpessoais, que somente agora percebemos a dimensão do prejuízo causado.

Desta vida somente levamos uma muda de roupa… E nem somos nós que a escolhemos. Porém, as boas lembranças de entes queridos e de amigos verdadeiros, essas sim, permanecerão até os últimos estertores de nossas existências.

 

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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