A VIDA É TALVEZ –
Cada dia mais o mundo me ensina que viver é, sem dúvida, a mais nobre das experiências, podendo ser tal ato, o grande ensaio da alma no palco do tempo, onde capítulos são escritos sem ensaio prévio, e cada gesto, ainda que simples, deixa marcas no infinito.
Viver é ser, em essência, o todo e o oposto. É sentir-se divino quando o amor transborda, e acabrunhado quando o erro nos ensina. É compreender que a grandeza da existência não está na constância da alegria, mas na coragem de abraçar o que ela traz, luz e sombra, riso e lágrima, orgulho e arrependimento.
Foi vivendo, e apenas vivendo, que um dia aterrissei no aeroporto de Katmandu, esse ponto distante do mapa que parece tocar o céu. Lá não cheguei em busca de nada, mas talvez levado por tudo: pelas perguntas que a vida insiste em deixar sem resposta, pelas paisagens interiores que precisavam de novos horizontes para se revelarem.
Então foi no longínquo Nepal, sopé do Everest, cujo cume toca o céu, que visitei um templo budista envolto por sossego quase palpável, quietude que não conforta, pois obriga cada um a escutar a si mesmo.
Dentro daquela casa de oração, os sinos ecoavam como preces suspensas no ar, e o vento, entrando pelas frestas, carregava o aroma das flores e das oferendas. Sentei-me por instinto e deixei que o silêncio falasse. Foi então que, em uma das paredes, meus olhos repousaram sobre uma inscrição simples, mas profunda: “A vida é talvez…”
A frase, inacabada, soava como convite, ou talvez aviso. “A vida é talvez” porque nada nela é certeza: o amor, o tempo, o destino, tudo é movimento e possibilidade. “A vida é talvez” porque o que julgamos ser eterno se dissolve no instante seguinte, e o que parece perdido ressurge com nova forma.
Ao deixar o santuário, trouxe comigo a sensação de que aquela frase era, em si, uma oração, que não pede, mas aceita, que não promete, mas compreende. E enquanto o sol se escondia por trás das montanhas do Himalaia, compreendi que viver é justamente isso: caminhar entre a serenidade e o talvez, o sagrado e o efêmero, com a alma aberta à incerteza que nos faz humanos.
Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras
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