A VERDADE NO BANCO DOS RÉUS: UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL DO TRIBUNAL DO JÚRI – Raimundo Mendes Alves

A VERDADE NO BANCO DOS RÉUS: UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL DO TRIBUNAL DO JÚRI –

Há experiências na vida jurídica que não se apagam com o tempo. Permanecem como marcas silenciosas, que voltam à memória não apenas como lembrança, mas como advertência.

Certa vez, em atuação no Tribunal do Júri, tive a honra de dividir a tribuna com um grande colega e parceiro de batalhas forenses, o saudoso Dr. Arnaldo França, que, além de brilhante advogado, exerceu com dignidade e vocação a função de Defensor Público, sendo voz firme daqueles que muitas vezes não têm voz.

Homem de inteligência aguçada, fala precisa e uma visão prática do direito que só os anos de experiência conseguem lapidar. Mais do que um operador do Direito, era um verdadeiro instrumento de justiça social, comprometido com a defesa dos mais vulneráveis e com a essência do devido processo legal.

Naquela ocasião, após intensos debates e sustentação firme da defesa, fomos surpreendidos com um resultado desfavorável. Inconformados, mas ainda movidos pela convicção, decidimos recorrer. Lembro-me com nitidez do momento em que, tomado por um otimismo quase juvenil, afirmei: “Doutor, Arnaldo nós temos a verdade.”

Ele, com a serenidade de quem conhece as engrenagens ocultas do processo e da alma humana, respondeu com uma frase que jamais esqueci: “Dr Mendes, o menos importante num processo, às vezes, é a verdade. Não se engane. A verdade tem apenas uma face, mas a mentira tem várias. É mais fácil alguém ser iludido por muitas mentiras do que ser salvo por uma única verdade.”

Aquela afirmação, à primeira vista dura, não representava um desprezo pela verdade, mas sim um alerta profundo sobre a realidade do julgamento humano.

O Tribunal do Júri, por sua natureza, não decide apenas com base na técnica jurídica, mas sobretudo na percepção, na narrativa e na capacidade de convencimento. Ali, a verdade não chega sozinha: ela precisa ser apresentada, construída, traduzida em linguagem acessível e emocionalmente compreensível aos jurados.

E é justamente nesse ponto que reside o risco.

A mentira, quando bem articulada, pode se fragmentar em versões, se adaptar ao discurso, vestir-se de plausibilidade. Ela se infiltra, confunde, seduz. Já a verdade, por ser una, exige clareza, firmeza e, sobretudo, competência na sua exposição. Se mal apresentada, pode parecer frágil. Se mal compreendida, pode ser rejeitada.

E talvez por isso homens como o Dr. Arnaldo França se tornem inesquecíveis. Porque, na condição de Defensor Público, ele não apenas conhecia essa realidade, ele a enfrentava diariamente, lutando para que a verdade dos mais simples, dos esquecidos e dos invisíveis não fosse engolida por versões mais sedutoras, porém distantes da justiça.

Essa lição ultrapassa os limites do Tribunal do Júri.

Na vida, assim como no processo, não basta ter razão, é preciso saber demonstrá-la. Não basta possuir a verdade, é necessário defendê-la com responsabilidade, técnica e sensibilidade.

Vivemos tempos em que narrativas se sobrepõem aos fatos, em que versões disputam espaço com a realidade, e em que a aparência, muitas vezes, tenta substituir a essência. Nesse cenário, a advertência do Dr. Arnaldo França ganha ainda mais relevância.

Ela nos convida a refletir:
Quantas vezes a verdade perde não por falta de força, mas por ausência de voz?
Quantas vezes a mentira vence não por ser mais forte, mas por ser mais bem contada?

Como operadores do Direito, carregamos não apenas o dever de buscar a verdade, mas a responsabilidade de protegê-la da distorção, da superficialidade e da manipulação.

A verdade não pode ser ingênua. Ela precisa ser firme, estratégica e, sobretudo, bem representada.

Ao recordar aquele episódio, não guardo o amargor da derrota, mas a grandeza do ensinamento.

Porque, no fim, compreendi que a missão do advogado e, com ainda mais intensidade, a do Defensor Público, não é apenas ter a verdade ao seu lado, mas garantir que ela seja ouvida, compreendida e reconhecida, especialmente quando pertence àqueles que mais precisam de justiça.

E isso, sem dúvida, exige muito mais do que razão: exige preparo, consciência e, acima de tudo, sabedoria.

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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