A REINVENÇÃO DA PRAÇA – Alberto Rostand Lanverly

A REINVENÇÃO DA PRAÇA –

Cada criatura possui seus próprios refúgios energéticos, podendo ser uma casa de infância, biblioteca, praia solitária, rua onde a brisa soprava diferente. Tais lugares nos chamam de volta, mesmo que só em pensamento, pois carregam pedaço de quem somos e de repente porque representamos parte deles.

Recentemente estive no centro de Maceió, onde encantei-me ao verificar a feição da repaginada Praça do Montepio dos Artistas, ambiente em cujo largo, no inicio dos anos sessenta, os circos eram montados e para lá levado por meus pais, dirigia-me para dar boas gargalhadas com as atrações que para mim pareciam “roliudianas”.

Não resistindo ao impacto da visão, sentei em uma de suas mesinhas e passei a pensar naquele espaço oficialmente conhecido como Bráulio Cavalcante, lá brutalmente assassinado há mais de cem anos, mas popularmente conhecida como Montepio, que guarda em seu espaço passado marcado por tragédia, política, espetáculos e práticas sociais controversas.

Recordo que aquele largo simbolizava resistência, onde políticos e oradores ali propagavam ideias e convocava o povo. Em outros momentos, foi ponto de encontro para espetáculos populares, como a instalação de “parques de diversão”, com suas “rodas gigante”, trazendo alegria ao centro da cidade.

No entanto, nunca esqueci quando passou a ser conhecido por uma realidade menos festiva e mais marginalizada: a prostituição. Ao cair da noite, belas mulheres chegavam ao Montepio e aguardavam clientes que se aproximavam a pé, de bicicleta, moto ou carro. Após uma breve conversa e o acerto do programa, seguiam juntos para um local isolado onde o acordo era consumado.

Lembro que ainda criança quase adolescente, com meus colegas do Marista, descíamos a ladeira do Brito e lá chegando nos escondíamos por detrás de anteparos para tentar reconhecer alguns professores do colégio, que diziam ali compareciam nas noites de quinta e sexta feira, para tentar fisgar alguma novinha.

Essa faceta da praça, marcada pelo comércio do corpo, reflete não apenas a dinâmica social da época, mas também a relação contraditória da cidade com seus espaços públicos. Entre discursos políticos, apresentações artí­sticas e encontros furtivos, a Praça Bráulio Cavalcante, carrega a marca de um centro urbano que, ao longo do tempo, sempre encontrou formas de se reinventar e estar linda como nos dias de hoje.

 

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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